• Patricia Bezerra

O dia em que visitei Jesus



Há algum tempo atrás, eu e a equipe da ONG que dirijo há mais de dez anos fomos ao Centro de Progressão de São Miguel Paulista, uma penitenciária feminina no extremo leste de São Paulo, e promovemos cinco dias de evento: organizamos palestras, dinâmicas de grupo e atividades de integração para quase 200 mulheres em regime de privação de liberdade.

Durante todo o tempo em que preparei aquela ação e mesmo na preleção que fiz, o Pai não cessou de falar ao meu coração. E ele me lembrou de um texto que sempre foi muito importante para mim. É o trecho do evangelho de Mateus que diz: “... ‘tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’. Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Quando te vimos com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos ou necessitando de roupas e te vestimos? Quando te vimos doente ou preso e fomos te visitar?’”.

A narrativa prossegue afirmando que “o Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a alguns dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’” (Mateus 25.35-40). Assim, naquele dia, me dei conta de que eu estava ali visitando Jesus! A ilustração bíblica deixou isso muito claro em meu coração. Jesus conhece, como ninguém, o ser humano. Ele sabe todas as situações que ele pode vir a passar, e mais: coloca-se em nosso lugar em todas elas. E isso vale, inclusive, para a situação do público para o qual eu falava, vale para aquelas mulheres em privação de liberdade, encarceradas.

Enquanto conversava com cada uma delas, a presença do amor do Mestre naquele lugar me fazia compreender o quanto aquelas mulheres eram importantes para Ele. Não se trata de um Deus julgador, que estaria ali para questionar as razões que as levaram a ser presas ou as motivações dos crimes que possam ter cometido, mas de um pai amoroso, que as recebia da forma como estavam. Essa percepção mexeu comigo profundamente. Despertei para a dura realidade do cárcere. Ouvindo aquelas mulheres todas, fui tomada por compaixão. E, pela graça de Deus, não orei como aquele fariseu, que agradecia por não ser como o publicano. Antes, o Espírito me mostrou que somos todas feitas da mesma matéria, que eu poderia perfeitamente ser uma delas. Que se havia algo que nos distinguia eram apenas as oportunidades, as escolhas.


Nas verdades que dividi com elas, enfatizei que elas poderiam ser livres mesmo estando ali, naquela penitenciária. A liberdade para qual Cristo nos libertou, como diz sua Palavra em Gálatas 5.1, é muito maior que grades feitas pelos homens. Ela quebra as correntes que nos mantinham presas espiritualmente, ela nos livra dos grilhões do pecado. E as palavras que compartilhei com aquelas mulheres, querida leitora e caro leitor, são também para nós, que estamos do lado de fora daquele lugar. Muitos de nós, aparentemente livres, estão, antes, encarcerados. Muitos não estão presos em uma penitenciária qualquer, mas são escravos em outros jugos. Há os que obedecem à ditadura do “ter para ser” e saem desvairados às compras para compensar o que não sabem a seu próprio respeito e o desconhecimento de sua identidade em Cristo; outros despejam todos os seus recursos correndo atrás de tudo o que os faça aparentar menos idade; e há aqueles que buscam preencher seu vazio interior sempre com uma nova paixão. Esse estilo de vida, nem de longe, tem a ver com liberdade. Só iremos ser livres quando conhecermos – de fato – o que Deus pensa a nosso respeito e quem somos n’Ele, por meio de seu Filho, Jesus. Isso preenche qualquer falta. Isso faz com que qualquer um possa ser realmente livre, pelas ruas da cidade ou dentro de uma cela fria.

#Natal

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