• Adriel de Souza Maia

Desafios da família pós-moderna Como a Bíblia pode ajudar?



Vivemos num mundo de rápidas e profundas transformações, onde as normas e os princípios básicos da vida são constantemente mudados. Do mesmo modo, a chamada pós-modernidade tem provocado uma vida marcada pelo individualismo, competição e consumismo.

A família, bem com todos os demais agrupamentos sociais, tem sofrido impactos dessas mudanças profundas, bem como tem sido afetada, à luz dessa realidade. Cremos que a família não está num processo de dissolução, mas sim de transformação. Compreender e aceitar esse fato, à luz da Palavra de Deus, de sua revelação histórica e à luz da realidade em que vivemos, constitui o grande desafio missionário da Igreja.

Por isso, a Bíblia lança importantes desafios, para a renovação da vivência familiar como núcleo de formação, partilha e testemunho da graça de Deus. A partir desta proposta desejamos alcançar alguns objetivos:


  • Considerar a família em sua dinâmica comunitária no cenário da pós-modernidade é tocar em um assunto abrangente e inesgotável.

  • Apontar que, sociologicamente, a família é um grupo social fundamental. Ou ainda, grupo de pessoas ligadas por laços matrimoniais ou sanguíneos que geralmente vivem no mesmo lugar.

  • Destacar, no entanto, que essa configuração familiar tem outras dimensões (modelos) dentro da realidade em que vivemos.

  • Sublinhar quais são os eixos norteadores no cenário da pós-modernidade que tem seduzido o estilo de vida familiar, à luz dos valores do Reino de Deus.

  • Ressaltar algumas pistas bíblicas que podem ajudar no fortalecimento do núcleo familiar, tendo como fundamento a graça restauradora de Deus. Nesse sentido, ela (família) ocupa um lugar especial na revelação de Deus envolvendo o seu projeto criador. A despeito dessa excelência ela sempre enfrentou situações de crises agudas.

  • Concluir oferecendo algumas sugestões para a Pastoral Missionária da Família. Nessa pista, mostrar a importância da Igreja como Família de Deus no acolhimento, no testemunho, na evangelização e no serviço .


QUAIS OS DESAFIOS DA PÓS-MODERNIDADE PARA A VIDA DA FAMÍLIA?


A família pós-moderna como tantas outras instituições relacionadas à existência humana, enfrentam desafios independentemente do tempo histórico. Há profundas e rápidas transformações com grande impacto na vida da família e da Igreja. Na pós-modernidade parece que tudo está sob discussão, predomina a incerteza, tudo é efêmero e passageiro, descartável, estas são marcas do novo tempo orientado pelos valores do consumo. Predomina o individualismo e o egocentrismo presentes neste cenário afetando grandemente os relacionamentos familiares. A busca pelo “prazer” e pela “felicidade”, com o foco no individualismo (egoísmo), ressalta-se a indústria do embelezamento físico. Neste cenário o uso das drogas para as diversas variações da vida como, para dormir ou para acordar, para relaxar, para se ter um bom humor, para controlar o apetite alimentar, para um estímulo sexual etc., tem se tornado uma constante.

Vivemos numa sociedade acrítica, competitiva, consumista. O mercado é mais importante do que a vida. Os meios de comunicação têm um papel fundamental nessas mudanças gerando necessidades. Pais, mães, filhos, filhas entram num processo exigente de trabalho e estudo que consomem tempo e energia. Informação, conhecimento e novas formas de relacionamentos por meio de novas tecnologias estão cada vez mais acessíveis, tanto pelas múltiplas possibilidades da mídias tradicionais como das mídias digitais.

A família como célula-base da sociedade local, onde é construído os valores que vão marcar a vida de cada pessoa por meio da convivência, tem papel predominante em lidar com essa lógica social. Identificar o que é positivo e o negativo auxilia na formação e na construção dos valores mais humanizados e de uma vida em harmonia na sociedade.

No presente cenário da pós-modernidade a família sofre grandes transformações na composição e organização por conta dos divórcios, maternidade solitária, agregação de componentes, formação de casais decorrente da união homoafetiva. Nesse sentido, o papel da família como promotora de valores ganha mais força. Um dos grandes desafios que a família enfrenta é o relativismo. O escritor Albert Mohler destaca em seu livro – Convicção para Liderar:


“O carnaval moderno de visões de mundo inclui a pós-modernidade que nega a existência da própria verdade como uma realidade exterior de si mesma. Isso significa que algumas pessoas hoje realmente acreditam que a verdade não existe nem pode ser conhecida [...] Ainda pior, alguns dos pós-modernistas mais radicais têm declarado que as afirmações da verdade são inimigas da liberdade humana.”


A família hoje é bem diferente da do passado. Os lugares e papéis das pessoas mudaram. As condições econômicas e sociais levaram a família a buscar novos caminhos e os desafios estão na própria concepção do que é família. Diante dessas novas configurações familiares, acolhidas pela sociedade atual, a Igreja precisa dialogar sobre a relação entre o Evangelho de Jesus Cristo com as famílias. Nesse sentido, é importante ampliar o conceito de família. A família nuclear ou extensiva não deve ser a única tipologia que ocupa nosso pensamento. Jesus em sua época dialogou com famílias como a de Marta, Maria e Lázaro, formada por irmãos de sangue e outros tipos de família.

Como, no contexto da pós-modernidade, podemos exercer a disciplina diante da “lei da palmada”? Como lidar com o desafio de uma sociedade em que os meios de comunicação estão baseados em tecnologias do que em contatos diretos? Como construir relacionamentos significativos e oferecer orientações diante dessa situação? Como lidar com a crescente composição familiar plural? Como receber crianças adotadas ou fruto de inseminação artificial de casais gays? Estes e outros questionamentos tem pautado as discussões, não só na âmbito familiar, mas também fora dele, e ainda estão sem soluções.

A pós-modernidade tem sido geradora de abandono, falta de presença física da autoridade amorosa, da disciplina, do preparo para a vida. O que vemos são relações egoístas onde há cobrança excessiva de obrigação dos outros, sem dar nada em troca. Falta compreensão e temor a Deus. O maior desafio da pós-modernidade para a vivência da família é a manutenção dos valores permanentes do evangelho de Jesus Cristo em termos de compromissos éticos e morais.


"As tensões da vida moderna têm provocado desequilíbrios, desvios de personalidade, insegurança, desajustamento mentais, emocionais e psicológicos, os mais diversos, tornando tudo isto barreiras para o relacionamento interpessoal. Valores éticos, religiosos e morais têm sido substituídos por outros mais imediatos, levando as pessoas a uma vida individualista e egocêntrica, onde a realização pessoal, o posicionamento social, os bens e o prazer, tornam-se dominantes, impedindo assim, uma vivência de cunho mais comunitário."

(Pastoral da Família - Colégio Episcopal da Igreja Metodista).


COMO A BÍBLIA PODE AJUDAR?


Numa análise superficial parece ser uma pergunta fácil de ser respondida. No entanto, aprofundando a questão é uma pergunta que traz muita inquietação no processo de respondê-la. A questão básica e fundamental é saber como estamos lendo a Bíblia e interpretando à luz dos acontecimentos. Assim, sublinhamos algumas respostas recolhidas de diversos segmentos:

  • A Bíblia pode ajudar por meio dos valores do Evangelho. É indispensável relembrar os valores do Evangelho diante da pós-modernidade, como por exemplo: justiça, solidariedade, perseverança, esperança, amor, respeito etc. Outros parecem estar na contramão da pós-modernidade.

  • Os frutos do Espírito x obras da carne: Estes ou outro indicativo bíblico que poderá nos ajudar a rever relacionamentos intrafamiliares e a educação cristã em família. A família solidária é um dos grandes focos apregoados no Evangelho. A família de Marta, Maria e Lázaro, que foge ao padrão nuclear e extensivo de ser família, porém, conviveu com os seus dilemas, nas dialogou e solicitou a presença de Jesus para direcionar suas vidas.

  • A Bíblia nos mostra o alvo, os verdadeiros valores, o que realmente importa. Ensina a compartilhar o pão. Ela nos apresenta a vida e a história de famílias não perfeitas, mas sujeitas à perfeição pelo poder de Deus.

  • A Bíblia trabalha, não apenas como livro histórico e teológico sobre o tema, mas didático, pois orienta, no tema familiar, desde a sua construção, administração de crises, relação conjugal, educação de filhos/as, estimulando a vida comunitária de interdependência e não individualista.

  • A Bíblia oferece muitos caminhos, porém o primordial é o amor (1Co 13.13). O amor é o afeto em ação. Através do amor desenvolve-se uma forte espiritualidade que dá forma nas interações mais íntimas e cotidianas. Transmitimos a nossa família (filhos e filhas) muito mais pelas atitudes, modos de comunicação interpessoal, respeito no trato a todos os membros da família, atenção às necessidades de cada faixa etária dos familiares do que através de "lições de moral" ou "autoritarismo".

  • A Bíblia focaliza no evangelho a presenca da fé, do amor, da solidariedade, da empatia à luz do que Cristo realizou. A Palavra de Deus enfatiza o amor ao próximo como fundamental. A vivência desse amor leva a pessoa a considerar a outra com afeto, carinho, respeito e misericórdia. Paulo ensina que precisamos “levar os fardos uns dos outros” e acolher uns aos outros conforme Cristo nos acolheu” (Rm 15.7).

  • Sendo elemento norteador de valores e princípios. Deus ama a família e se preocupa com ela. Tem um papel importante no resgate da vida devocional familiar. Inspira o carácter cristão aos integrantes da família. A Bíblia precisa ser o centro da base da fé cristã.

  • Podemos dizer como ela não pode ajudar, se procurarmos orientações de organização e composição nela. A Bíblia não dá conta como regra de organização social, pois foi escrita em contexto cultural muito diferente. Nela temos o modelo de família patriarcal e poligâmico que de forma alguma pode orientar o nosso tempo. Os casamentos eram arranjados e as mulheres eram, sempre, exclusivamente do lar; quando viúvas, eram herdadas pôr cunhados ou parentes mais velhos; maridos eram vistos como a cabeça e mulheres submissas à vontade deles; filhos não tinham voz e deviam apenas obediência.

  • A grandeza da Bíblia está em ser fonte de ajuda e de orientação no nosso tempo justamente no campo dos valores. Ela destaca o papel da família como educadora/formadora para tais valores, conforme está escrito em Deuteronômio 6.7 : "tu inculcarás a teus filhos...".

  • A Bíblia está cheio de exemplos de família, tais como a família de Jesus (adoção); de mulheres sozinhas que se unem para garantir a sua sobrevivência e a justiça (Noemi e Rute); o marido que apoia a esposa, mesmo que seus projetos sejam diferentes dos seus (José em relação a Maria, mãe de Jesus).


PISTAS PASTORAIS


  1. O primeiro desafio consiste na graça restauradora do Evangelho de Jesus Cristo. Nesse sentido, a leitura da Bíblia precisa ser um canal permanente do amor de Deus em termos de perdão, reconciliação, respeito, inclusão e amor.


“A preocupação ética e moral da Igreja não deve impedir o exercício do amor. O pecado contra a pureza moral não justifica o pecado da falta de perdão e amor. A preocupação pela pureza da vida cristã e da Igreja, não deve nos levar a cair num legalista hipócrita ‘quem não tiver pecado, atire a primeira pedra’ disse Jesus. Cristo nos ensinou tantos ou mais elevados ideais da vida como, também, uma compaixão incomensurável para aqueles que sofrem a sua incapacidade de atingir os seus ideais." (Pastoral da Família - Colégio Episcopal da Igreja Metodista).


  1. No ensino bíblico aponta a importância da família dentro do projeto criador de Deus. O próprio Deus é Pai de toda a criação. A oração do Pai Nosso poderá nos ajudar.


  1. O termo grego oikos ocorre diversas vezes no ensino do Novo Testamento e significa "casa", "família" "pertences", "bens". Portanto, oikos traduzido por casa ou família tem significados e desdobramentos importantes: edificar, administrar, habitação, construir, edifício. Pastoralmente, esses desdobramentos são profundos, ou seja, a família está sempre num processo de construção socialmente psicológica, moral, econômica, espiritual, missionária etc.


  1. Dilatamento do conceito de família, além dos laços sanguíneos. A visão da Carta de 1 Pedro 2 é inclusiva. Oferece uma visão da família humana, por isso, a família cristã no cenário da pós-modernidade caminha nos caminhos da missão, olha para a terra habitada com paz, justiça, solidariedade e amor. Constrói pontes de vida, ou seja, tem um compromisso com a integridade da vida.


  1. A família dentro do propósito busca constantemente três encontros: com Deus, consigo mesma e com a missão (Rm 14.18).



REFERÊNCIAS PARA ELABORAÇÃO DESTE TRABALHO


Recebemos depoimentos das seguintes pessoas para elaboração deste trabalho:

Almir de Souza Maia, João Alves de Oliveira Filho, Marcos Antonio Garcia, Enoque Rodrigo de Oliveira Leite, Ana Alessandra Politi Maia, Jairma de Assis Guello, Olivio Andrade da Silva, Magali do Nascimento Cunha, Nelson Luiz Campos Leite, José Ildo Swartele de Mello, Noeme Klaus, Blanches de Paula, Família Toque de Poder, Lima Junker, Liane Goya, Edurdo Goya, Cesar Lavoura, Genilma Langkamner.


Textos consultados:


RODRÍGUEZ, Alfonsa. La familia post-moderna. In: Redes 18. Dez. 2001, pp. 103-115. Disponível em: http://www.revistaredes.es/imagenes/pdf/La%20familia%20posmoderna.%20A.%20Rodr%C3%ADguez.pdf Acesso em:


PANICIO JUNIOR, Ivan Tadeu. Desafios da família na pós-modernidade: perspectivas e possibilidades. In: Teologia & Espiritualidade – Revista Eletrônica da Faculdade Cristã de Curitiba. Disponível em: http://fatadc.com.br/site/revista/2_edicao/Artigo_5.pdf. Acesso em:


HINTZ, Helena Centeno. Novos tempos, novas famílias? Da modernidade à pós-modernidade. In: Pensando Famílias, 3, 2001, pp. 8-19. Disponível em: http://www.susepe.rs.gov.br/upload/1363010551_hintz_novos_tempos,_novas_fam%C3%ADlias_-_complementar_8_abril.pdf. Acesso em:


RIBEIRO, João Ubaldo. Pais. mãe e filhos. Jornal O Globo. Rio de Janeiro. 2 set. 2012.


MAIA, Adriel de Souza. A família nos caminhos da missão. In: ENCONTRO NACIONAL DE CAPACITAÇÃO PARA MULHERES DA IGREJA METODISTA. 2012. As famílias nos caminhos da missão. Disponível em: http://portal.metodista.br/metodista.br/fateo/noticias/veja-como-foi-o-encontro-nacional-de-capacitacao-para-mulheres-da-igreja-metodista. Acesso em:


COLÉGIO EPISCOPAL DA IGREJA METODISTA. Pastoral da Família. São Bernardo do Campo: Departamento de Editoração da Imprensa Metodista, 1970.


MOHLER, Albert. Convicção para Liderar. São Paulo: CLC/Lifeway, 2014.


SILVA, Gilberto. Da família sem pais à família sem paz. Recife: Edições Bagaço, 2006.

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