• Marco Thomazi

Traição! Isso não perdoo!


O assunto de traição é sempre indigesto, causa mal só de pensar. Esta, sem dúvida, é uma das atitudes que mais nos remetem ao homem caído. Sua primeira edição ainda ocorreu nos céus, quando serviu de base para todo o levante liderado por Lúcifer contra Deus. O anjo mais belo voltou-se contra o Criador e quis ser como Ele. Desde o primeiro relato a Bíblia nos conta inúmeros casos de traição, do Gênesis, quando Caim traiçoeiramente matou seu irmão Abel, no Éden, até o Apocalipse, que relata a maior expressão da malignidade influenciando milhares a voltarem-se contra Deus. Realmente o fundamento da traição é maligno.


A dinâmica da traição é maligna e injusta porque conta com o elemento infidelidade a partir de alguém que amamos. Ninguém trai um estranho, ao contrário, a característica maior e, por isso mais dolorosa, é que a traição parte de alguém que temos bem por perto e por quem nutrimos grande afeição e amor. O golpe inesperado desferido por uma pessoa intimamente ligada pega desprevenido aquele que é traído. Esta ligação de amor é fatalmente ferida por aquele que trai. A desilusão, seguida por uma série de sentimentos alternados, traz um quadro que se configura um dos mais difíceis de reconciliação.


O princípio que é frontalmente atacado neste exemplo é a fidelidade, base para todo relacionamento saudável. O casamento é construído a partir de um alicerce chamado confiança, que se constrói com base na fidelidade do marido para com a esposa e vice-versa. Este edifício é construído com atitudes baseadas na fidelidade mútua e no compromisso reafirmado dia após dia, nas pequenas coisas, como telefonemas apenas para atualizar as informações e saber se tudo está bem. Contando os detalhes dos acontecimentos, trazendo uma versão verídica dos fatos é que se constrói este grande edifício chamado fidelidade. Verdade acima de tudo, mesmo que seja duro de enfrentar, produz um forte alicerce no relacionamento do casal.


Pensamentos – a origem da traição


Este tão grande edifício pode sofrer de um mal aparentemente inocente: um breve pensamento, apenas alguns segundos de descuido, é sabidamente a origem daquilo que virá a ser a traição.


À medida que os dias vão passando, aquele pequeno pensamento toma forma, e as rachaduras da desconfiança e infidelidade começam a causar danos ao edifício chamado casamento. Mesmo que, ainda nesta etapa, a parte inocente nem desconfie do que se passa na mente do cônjuge.


Este quadro vai se desenvolvendo e enquanto alguém não colocar nenhum impedimento nesta trajetória a própria carnalidade e o ambiente promíscuo em que se convive darão conta de desenvolver as fantasias que assumirão formas na mente daquele que abriga a pequena raiz da infidelidade. É importante lembrar que há sempre uma “mãozinha” do inimigo de nossas almas, que vai cuidadosamente pintando um quadro atraente. Na primeira traição relatada na Bíblia, o argumento usado na mente de Eva foi a dúvida – “certamente não morrerão” – e com isso instigou a sua curiosidade sobre o assunto.


Este é um exemplo que vemos diariamente, a curiosidade de um relacionamento extraconjugal: “como será?”, “ninguém vai saber”, “ninguém é santo”, “hoje isso é tão comum” são artimanhas usadas pelo inimigo, antigas, porém eficazes.


Ao longo de mais de 25 anos de experiência em aconselhamento matrimonial, eu e minha esposa Lúcia detectamos este processo centenas de vezes. No início é só um pensamento tolo, que nem se parece com traição, mas com o passar dos dias se torna mais desenvolto até que a oportunidade apareça. Este processo pode demorar anos. O que notamos é que o diabo não tem pressa para destruir um casamento, mas ele não perde tempo, está trabalhando diariamente para nos roubar e destruir (João 10.10).


Nesses anos vimos também muitas pessoas vitoriosas, que, com a chegada da oportunidade para a traição, passaram com facilidade pela situação porque tiveram um discernimento imediato do que se tratava e apenas reagiram buscando ao Senhor e colocando sua fraqueza perante Deus.


Reconstruindo a partir do perdão


Após o baque e a consequente crise de uma traição, segue-se a fase da desilusão e desesperança. É o que se chama de luto, que é o processo de elaboração da perda e a tentativa de compreender a desordem de sentimentos. Este período é muito delicado porque a pessoa se encontra muito fragilizada. Neste momento é que são importantes os aconselhamentos pastorais, e o cuidado de gente mais experiente será de grande valia para sair deste quadro. A pessoa atingida chegará a um momento que terá de decidir se quer ir em frente ou continuar sofrendo. Para sair vitoriosa terá de elaborar todo o processo de perdão e liberação da outra pessoa envolvida.


Quero enfatizar que a decisão de ir em frente é exclusivamente da pessoa que foi ferida. No último ano tive de reaprender o que significava liberar perdão. Depois de um processo de desligamento denominacional, vi-me sendo difamado por muitas pessoas queridas pelas quais tínhamos muita consideração e amor. Esta situação perdurou por alguns meses, e a cada novo comentário meu coração se entristecia mais. Comecei a arrazoar quem tinha razão, e esta fase me entristeceu sobremaneira. Um dia, buscando ao Senhor, ouvi o sussurro do Espírito Santo perguntar a mim como eu queria viver o resto de meus dias. Esta voz me levou a refletir sobre o que deveria fazer: continuar a me sentir injustiçado e desprezado ou decidir perdoar e seguir em frente superando este momento difícil. Cabe aqui um comentário: é interessante notar que o perdão não ajuda a mudar as pessoas nem a impedir que elas continuem a fazer o que estão fazendo, mas produz uma grande mudança em nós mesmos. A partir de minha decisão de liberar perdão, independentemente de quem estivesse com a razão, comecei a sentir alegria novamente e uma liberdade tomou conta de meu coração. O Espírito Santo foi me guiando para abençoar as pessoas que me vinham à mente e isso foi produzindo libertação, até que me senti totalmente livre daquela situação. Este processo durou algumas semanas. O perdão não se libera por sentir, mas por compreender que é certo e agradável a Deus, e ao fazer isso nós mesmos seremos abençoados. Não é à toa que a Bíblia nos ensina tanto sobre o perdão e seu poder de reconstrução.


Na verdade o processo de perdão e reconciliação é válido para todas as ocasiões em que princípios de Deus são quebrados e consequências vêm como colheita certa. Trilhar o caminho do perdão verdadeiro não é o mais fácil e rápido a fazer, mas sem dúvida é o que deve ser exercitado por aqueles que desejam dar continuidade em suas vidas buscando sempre o melhor de Deus.


Não permita que sua vida seja destruída por outros, mas reaja buscando restauração. Seja corajoso para não continuar da mesma forma e não permita que o inimigo de nossa alma leve vantagem. Com certeza você não consertará o mundo, mas encontrará liberdade e restauração para a sua própria vida.

#Perdão

2 visualizações0 comentário
  • Twitter Clean
  • w-facebook
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now