• Jaime Kemp

Começar de novo!


Corrie Ten Boom foi uma mulher holandesa cristã, que na época da Segunda Guerra Mundial escondia judeus em sua casa e, depois, facilitava-lhes a fuga para que não fossem mortos. Ela, sua irmã e seu pai foram descobertos e presos em um campo de concentração. Ali passou por todas as humilhações e sofrimentos imagináveis. Sua irmã e seu pai não resistiram aos maus-tratos e morreram. Ao final da guerra, após a rendição da Alemanha, ela foi libertada. Levou, porém, muito mais tempo para libertar seu coração do ódio consumidor que nutria contra os responsáveis pelo tratamento desumano e abusivo que recebera.


Ao perdoar, percebeu que havia descoberto o único poder restaurador para o sofrimento e ódio do povo europeu. Começou, então, a pregar sobre o perdão na Holanda, França e Alemanha.


Certo domingo, em Munique, Alemanha, falou numa igreja sobre o perdão. Após o culto, desenrolou-se o que podemos chamar de um verdadeiro drama. Um homem aproximou-se dela com a mão estendida e, na expectativa de ser cumprimentado, perguntou:


– Então, Ten Boom, posso acreditar que você já me perdoou? Estou aliviado porque Jesus perdoa todos nossos pecados, como você acabou de falar!


Naquele instante, Corrie o reconheceu. Ele era o soldado que a forçara a tomar banho junto com as outras prisioneiras enquanto ele as observava e lhes dirigia palavras obscenas. Foi como se, ali mesmo, um vídeo rodasse em sua mente trazendo o terrível passado de volta. A mão de seu algoz continuava estendida. Ela, porém, congelara e não conseguia fazer um movimento sequer. Onde estava o perdão do qual acabara de falar?


Corrie ficou indignada com sua própria reação. O que fazer? Estava certa de ter superado seus sentimentos contra aqueles homens cruéis, mas deparava-se, naquele momento, com uma situação na qual realmente não conseguia perdoar.


O que fazer? Simplesmente orou: “Jesus, eu não consigo perdoar este homem. Por favor, me perdoe!”. De repente, de forma inexplicável, ela se sentiu perdoada. Como? Ela perdoada? De quê? Perdoada por não haver perdoado!


E foi então que, ao receber o perdão de Deus, ela estendeu a mão em direção ao seu ex-inimigo e sentiu um profundo amor invadindo-lhe o ser. Com aquele aperto de mão ela libertara não só aquele homem, mas também a si mesma.


Reconheço que nem sempre Deus age de forma tão rápida em relação ao perdão. Normalmente é um processo que pode levar dias, meses, até anos. E também não será necessariamente padrão que o relacionamento com a pessoa que nos infringiu o sofrimento volte nos mesmos termos. Cada caso é um caso. Pode-se, por exemplo, perdoar um abuso, mas não se deve favorecer as circunstâncias de forma a possibilitar uma reincidência. A Bíblia diz que devemos ser simples como as pombas, mas astutos com as serpentes (Mateus 10.16).


Há algo, porém, que deve ser dito, porque muitos chegam a acariciar suas mágoas e a agarrar-se a elas como incentivo de vida. A ausência do perdão acarreta sérias e visíveis consequências. Uma senhora cuja mãe falecera por imperícia médica procurou-me para dizer que dia e noite ela era alimentada pelo ódio que armazenava contra o profissional que causara aquela perda em sua vida. Confessou, também, que estivera a ponto de comprar uma arma para matá-lo. Seu rosto, personalidade e espírito estavam deformados pelo ódio que, literalmente, a consumia. Ela estava lívida e era a verdadeira expressão da dor, desespero e tristeza.


Tenho conversado com esposas e maridos cujos parceiros foram infiéis. Como é difícil perdoar! Chego a pensar que a ordem deixada por Paulo em Colossenses 3.13 seja uma das mais difíceis de obedecer: “Sejam amáveis, prontos para perdoar; jamais guardem rancor. Lembrem-se que o Senhor os perdoou, portanto vocês devem perdoar os outros” (Bíblia Viva).


Ao confessarmos a Deus que compreendemos que devemos perdoar, mas não estamos conseguindo, Ele nos dá o poder para tal. O impossível aos nossos olhos é possível para a Fonte do perdão. Porém, é bom frisar, nem sempre será tão rápido quanto foi para Corrie Ten Boom.


Há etapas para o perdão (a não ser que Deus as pule). A primeira é o sofrimento agudo proveniente da dor, o que costuma conduzir à segunda, que é o ódio. Nesse ponto nos parece impossível esquecer a ofensa recebida e, muito menos, desejar o bem do ofensor. A terceira fase é a cura. Deus atuando no processo vai possibilitando que a dor aos poucos diminua. A quarta etapa é a reconciliação com o ofensor. E aí, lembramos de outro versículo relacional: “Façam todo o possível para viver em paz com todos” (Romanos 8.18). A paz pode ser refeita pelo menos em seu coração.


Você está com dificuldades de perdoar? Deixe-me dizer uma coisa: você não é o único. Perdoar não é fácil. Mas o perdão partiu de Deus, pois Ele em Cristo veio ao mundo para perdoar as nossas ofensas. “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (2 Coríntios 5.21). Jesus tomou nosso lugar na cruz do Calvário para que pudéssemos ser perdoados e livres. O objetivo de Deus também é nos libertar das torturas causadas por nossa mente e emoções: “Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo” (Efésios 4.32).


Gostaria de, agora, ser um facilitador para você que está encontrando dificuldades de perdoar alguém. Deus sabe o que lhe fizeram e a intensidade de sua dor. Vou deixar aqui registrado o exemplo de uma oração. Não são palavras mágicas. É só uma ilustração para você seguir, caso esteja com problemas em conseguir perdoar:


Meu Deus, muito obrigado por seu amor por mim. Sei que o Senhor me perdoou, mas confesso que não estou conseguindo perdoar............................................ (cite o nome da pessoa aqui. Não precisa escrever. O objetivo é que você personalize sua oração).


Estou, no entanto, colocando-me à sua disposição para que o Senhor opere um milagre em meu coração. O Senhor conhece a intensidade da minha dor. Quero entregá-la neste momento e pedir que perdoe essa pessoa através de mim.


No nome de Jesus, amém.


O perdão liberta, principalmente a pessoa que o concede. Digo isso porque nem sempre o ofensor valorizará o perdão recebido. Porém, o mais importante é saber que o perdoador, além de obedecer à ordem divina, vive melhor com Deus, consigo e com os seus semelhantes.


Para fechar este artigo (mas não o assunto) gostaria de acrescentar que nem sempre essa disposição de perdoar e sua verbalização através da oração suscitarão sensações ou sentimentos. Pode ser que os tenha, então louve mais ainda ao Senhor. O que realmente importa é o fato de você apresentar sua disposição a Deus e fazer o que for preciso para implementá-la.

#Perdão

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