• Arlete Castro

Enlaçados pelo amor



O sol é persistente e mesmo no rigor do inverno ele teima em brilhar. O mais típico nesta estação, pelo menos neste lado do mundo, é que as chuvas encharquem a terra, as nuvens carregadas escureçam o céu e o vento gelado seja uma constante. Mas neste ano, apesar do frio intenso, o sol continua a brilhar. As noites são enluaradas e as estrelas desenham no céu pontos de luz, como para lembrar que há mais para além da paisagem que temos. Elas aproximam de nós o universo e nem sequer percebemos.

Ao pensar neste quadro desenhado não por mãos humanas, ou pelo fruto de um acaso qualquer, mas por um Deus soberano que reina e a quem amamos, rendo-me à confiança de que se o jardim é tão belo e perfeito, nossa vida é incomparavelmente mais preciosa em suas mãos.

Mas antes do jardim havia um misterioso laço. Uma unidade perfeita e inexplicável, porém repleta de amor. Um amor que se completa, se enlaça e se abraça... a Trindade, um Laço Perfeito... Um amor tão intenso que transborda e toma forma, à medida que cria e transforma o abismo num belo cenário, inventa a cor, seus matizes e pinta, moldando um imenso jardim... é Ele o próprio Deus que, embalado na essência do amor, dá forma ao que era informe e vazio, desenha a vida em suas variadas nuances e sopra a sua essência em minúsculos detalhes.

E foi no jardim que Ele os criou. No momento mais sublime da sua criação, Deus os fez homem e mulher e soprou vida, essência e a sua própria imagem naquelas criaturas. A Trindade, o laço perfeito, era agora acessível, o homem pertencia àquela unidade, andava com Ele na viração do dia. Tinha comunhão, parceria, conhecia a presença de Deus, amava-o...

A eles, Deus ordenou que se multiplicassem, enchessem a Terra... criassem. O mundo seria repleto de laços que não se confundem, mas se entrelaçam, transbordam vida, amor aprendido, criação...

Até que o homem pecou. O jardim já não era suficiente. O encontro na viração do dia já não era prioridade, afinal eles queriam mais, tinham-lhes dito que havia mais... queriam ter as rédeas da sua vida, comandar o que julgavam lhes pertencer... queriam o conhecimento do bem e do mal...

E com o pecado veio a vergonha. Esconderam-se, já não podiam mais desfrutar da unidade perdida, da comunhão partilhada, do laço...

Eles não sabiam, mas com o pecado deliberado um laço foi rompido e já não havia volta a dar, afinal, quando um laço se parte, não é possivel mais consertar, reparar... a partir dali, a eles e à humanidade que deveria ser enlaçada em amor restariam apenas os nós.

Nós de insegurança, nós de medo, nós de orgulho, nós construídos pelo individualismo, pela falta de partilha, pelo desejo de encontrar um caminho e sem saber qual é a direção.

Mas a unidade perfeita de Deus, o amor incondicional derramado, não podia nos deixar a sós. E ainda no jardim Ele promete a vida (Gênesis 3). A descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Era a ação do Deus criador, derramando amor sobre os laços partidos, para outra vez nos enlaçar.

A queda deu origem a laços partidos, e se observarmos a sequência dos acontecimentos depois da queda e no decorrer do relato bíblico, veremos os sinais desses laços quebrados, a começar com Caim, que mata Abel, depois a humanidade perdida e longe de Deus nos tempos de Noé, Abraão e seus descendentes, os filhos de Jacó, depois o povo separado para abençoar nações, mas que não obedeceu... A Bíblia é um livro que não esconde a evidência dos laços partidos, mas também é onde encontramos o Caminho para nos enlaçar outra vez.

Como vimos, emoções como medo, insegurança, orgulho são fruto da queda. Temos em nós as marcas do laço partido. Muitos de nós somos frutos de famílias disfuncionais, ou mesmo que não seja esta a nossa realidade, o mundo à nossa volta, que tem um papel importante na formação da nossa personalidade, nos ensina a cada vez mais individualizar, esgueirar-se do outro, desvalorizar... E é assim porque nós não sabemos nos (re)enlaçarmos, pois o único que pode (re)fazer os laços é Jesus Cristo, o Caminho.

As emoções, como as citadas, são provavelmente a expressão de uma dor incontida, de uma história não resolvida, são marcas que afetam o nosso relacionamento com todos à nossa volta, em especial o nosso cônjuge, que é o nosso próximo mais próximo.

Por isso, para proteger-nos de tais emoções, o primeiro passo é reconhecê-las. Ocultar é o caminho mais fácil para fazer com que a dor aumente e crie raízes que podem ser fatais. Assim, chamar pelo nome aquilo que sentimos é o primeiro passo para nos proteger e para evitar os laços partidos.

Sendo Jesus o nosso Caminho de cura e (re)conciliação, é aos pés da cruz que poderemos confiar que há solução para as emoções negativas que nos rodeiam. Afinal, Jesus é aquele que (re)constrói, (re)faz, (re)enlaça... Jesus veio trazer de volta à humanidade a esperança de um Caminho que perdemos, e sabemos que seu santo coração pulsa por esta comunhão conosco.

É Ele que refaz os laços e nos capacita a ter um relacionamento com o nosso cônjuge, amigos, família, irmãos, baseados na segurança de que Ele criou para nós o melhor.

Jesus nos leva de novo à intimidade. E para alcançarmos um relacionamento saudável, protegido de emoções destruidoras, precisamos da sua companhia, não só na viração do dia, mas em todos os momentos de cada dia.

Jesus é a intimidade, aquela perfeita unidade que transborda até nós através do seu Espírito. Este vínculo tremendo que por vezes não nos damos conta é a ferramenta para que o nosso relacionamento seja repleto de intimidade. E entenda-se por intimidade aquela capacidade de conhecer alguém tão profundamente que sabemos o que alegra a outra pessoa, o que a faz chorar, o que a entristece e o que a faz vibrar. Assim, o vínculo com Ele leva-nos a conhecê-lo e conhecer o outro. Ao entregarmo-nos a este enlace perfeito, Ele mesmo nos acolhe e estende o seu abraço, alcançando todas as limitações da nossa vida.

E com Ele dirigindo os nossos passos, podemos caminhar, lado a lado com o outro, celebrando a vida, a comunhão, a comidinha caseira, os risos e as brincadeiras, chorando e sofrendo juntos por vezes, enquanto o tempo passa e deixa as suas marcas na face, no corpo, no jeito, mas sem jamais tocar no espírito, pois este está enlaçado numa Comunhão Eterna de Amor.

#Família #Amor

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