• Ailton Gonçalves Desidério

Como as Escrituras podem ajudar os aflitos a lidar com a depressão?



A Bíblia é o livro dos livros. Na verdade, é uma coleção de livros, todos inspirados por Deus (2 Timóteo 3.16), onde podemos encontrar a orientação para todos os problemas que gravitam em torno da vida. Diria que o tema central da Bíblia é a vida. Mas alguém pode contra-argumentar: “Não é o amor de Deus?”. Eu diria: “Sim!”, porém o objetivo último do amor de Deus na vida de uma pessoa que reconhecesse esse amor não é produzir vida? Jesus mesmo disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância” (João 10.10). O Evangelho encarnado em nós através da vida de Jesus, o Verbo que se fez carne e “habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (João 1.14), faz com que olhemos sempre para o céu, mas sem tirarmos os pés da terra. Ou seja, não podemos reduzir a salvação que Cristo nos oferece à dimensão eterna em detrimento da nossa vida na terra. Por que estou fazendo todo esse preâmbulo para falar sobre como as Escrituras podem ajudar as pessoas aflitas a lidarem com a depressão? Por um motivo muito simples: depressão não dá em pedra. Dá em gente, até mesmo em crente. Por mais estranho que pareça, há alguns crentes que entendem a depressão como um processo demoníaco e como castigo por conta de um ato de desobediência a Deus. Tal pensamento é igualzinho ao dos amigos de Jó. Que Deus nos livre deles. Antes de falarmos como a Bíblia pode ajudar as pessoas que vivenciam um episódio depressivo, é importante entendermos o que vem a ser a depressão. A Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva diz em seu livro Mentes depressivas, as três dimensões da doença do século: “De maneira mais técnica, a depressão pode ser definida como um transtorno mental que altera de modo significativo o humor de seus portadores”. Ela sublinha que “a palavra humor vem do latim humorare, que significa ‘disposição de ânimo’ de alguém”. Ressalta, no entanto, que a depressão não pode ser reduzida a uma parte do corpo, mas deve ser vista como um problema da pessoa. Reduzir a depressão às alterações eletroquímicas do organismo é um mote da farmacologia, que insiste na divulgação das pílulas douradas, ou azuis, da plena satisfação, ou da felicidade. A Dra. Ana Beatriz diz que “o humor do depressivo inclui uma série de sentimentos e emoções: o indivíduo sente-se infeliz, desesperançoso, apresenta acessos de choro e níveis bastante reduzidos de autoestima e autoconfiança. Sentimentos de culpa e menos-valia (sente-se pouco valorizado) também são frequentes e contribuem para o sofrimento dilacerante que o deprimido vivencia no cotidiano”. Certa ocasião, quando dirigia um grupo de apoio para líderes cristãos e falava sobre os sintomas do quadro depressivo, um dos participantes disse o seguinte: “Vocês não sabem o que vem a ser uma depressão. Só quem passa pela depressão pode dizer o que ela é. Eu tive uma crise depressiva e digo para vocês que mesmo com a fé que tenho em Deus eu cheguei a duvidar d’Ele. Não tinha vontade de ler a Bíblia e muito menos de orar”. Foi um testemunho bem impactante. Então, espiritualmente falando, lidar com um depressivo não é uma tarefa fácil. Imagine ouvir de um crente que passa por uma crise depressiva: “Eu não creio em Deus, porque se Ele existisse, não me deixaria passar por esta situação”. Mas lendo a Bíblia podemos observar que expressões semelhantes foram ditas por Jó, Davi, Jeremias e alguns outros personagens bíblicos. Devemos tomar essas palavras como palavras de lamento e não como ausência de fé. Os amigos de Jó, por exemplo, não aguentaram ouvir os seus lamentos e acrescentaram mais dor ao sofrimento dele com palavras de acusação, como: “Você não crê em Deus. Se você está passando por tudo isso, é porque você fez alguma coisa errada”. É só ler o livro de Jó e observar as falas acusativas dos seus amigos. E o pior é que a postura deles ainda aparece na fala de alguns crentes hoje. Que Deus nos livre dos ataques do inimigo e dos “amigos de Jó”. Diria que, diante de uma pessoa aflita, deprimida, devemos usar a Bíblia com certa cautela. Ou seja, não podemos usar os textos bíblicos como se fossem poções mágicas que a pessoa aflita precisa tomar. Proceder desse modo seria como forçar a pessoa a tomar aquele texto bíblico como se toma um remédio contra a vontade, empurrado goela abaixo. Gosto do texto do profeta Zacarias que diz: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zacarias 4.6). A Bíblia se define como uma espada afiada de dois gumes (Hebreus 4.12). Ela é capaz de alcançar o lugar onde o mais poderoso exame de imagem não pode alcançar e chegar ao ponto onde a melhor terapia não consegue chegar. O texto diz que a Bíblia é capaz de penetrar “até o ponto de dividir a alma e o espírito”. Como? Nem sei onde fica esse ponto, mas posso dizer que em alguns momentos de aflição já fui tocado nesse ponto que não sei onde fica e senti o efeito dele purgando minhas emoções, minhas lembranças amargas, ressignificando e abrindo meu coração para a vida. Use a Bíblia para consolar e ajudar os aflitos, mas faça isso com cautela, ou seja, com orientação espiritual. Não pegue a Bíblia como quem pega um bisturi, mas sem a habilidade necessária para usá-lo. Acho interessante ressaltar que as aflições, como a depressão, fazem parte da vida, em especial da vida daqueles que confiam em Deus. Foi o próprio Jesus quem disse para os seus discípulos: “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (João 16.33, NVI). Façamos uma exegese rápida desse texto: “Neste mundo” – nesta vida terrena, neste corre-corre desenfreado, em que, por conta do trivial, muitas pessoas estão abrindo mão do essencial, nesse sistema corrompido e cada vez mais estressante. “Terão aflições” – Isso é certo e garantido. Por mais que confiemos em Deus, não há como viver imune às dificuldades, aos problemas. O céu não é aqui. Nós estamos indo para lá, mas creio que ninguém está com pressa de chegar lá. Aceitar o problema é a melhor maneira de lidar com ele. Negar o problema, usando a fé como um tampão, não é a solução. Não melhora. Só piora. As aflições do mundo têm a ver com a angústia, sentimento indefinido que aperta o nosso peito; agonia, sentimento que, quando aparece, dá aquela vontade de jogar tudo para o alto e sair correndo para qualquer lugar no fim do mundo; tribulação, o que nos faz tremer por dentro, nossas incertezas em relação ao futuro, nossos medos. Aflições do mundo têm a ver com a mágoa de ser feridos por quem menos esperamos, têm a ver com a preocupação e com o tormento ansiedade. Sentimentos que, quando não assumidos, encarados e colocados perante Deus, desassossegam a nossa alma, roubam a nossa paz interior e adoecem o nosso corpo, inclusive deprimindo-o. “Tenham ânimo” – Já vimos que a depressão é uma alteração do humor, do ânimo. Desse modo, dizer para uma pessoa depressiva que ela precisa ter ânimo é um desafio. Mas isso pode ser dito com outras palavras. Por exemplo, quando o anjo do Senhor foi ao encontro de Elias, que, por conta de uma crise depressiva, estava no deserto e desejava a própria morte – é preciso ler toda a história de Elias para entender os motivos da depressão que o acometeu (1 Reis 18 – 19) –, “tocou nele e disse: ‘Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa” (1 Reis 19.7, NVI). O anjo tocou em Elias. Isso é a expressão do contato espiritual com o humano. O Deus da Bíblia não é um Deus só de palavras. Ele é o Deus que toca na nossa vida, na nossa alma. O toque, o contato, a partir do gesto de uma mão posta sobre o ombro, tem por vezes um significado muito maior do que muitas palavras. Por vezes isolado e remoendo suas aflições, tudo o que a pessoa depressiva precisa é de um toque, um gesto, de que alguém se importa com ela. O anjo disse: “Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa”. O pão simboliza o tratamento, o cuidado com o corpo. Podemos dizer que esse cuidado com corpo passa não somente pela alimentação – um dos sintomas da pessoa depressiva é a perda de apetite –, mas também pode ser o uso de medicamentos. O tratamento da depressão se dá por duas vias: psiquiátrico e psicoterápico. O anjo do Senhor deu uma ordem para Elias: “Levante-se”. A pessoa depressiva não pode ser obrigada, mas é preciso entender que em alguns momentos uma ação mais incisiva, como uma ordem, se faz necessária. Mas o anjo do Senhor deu para Elias um sentido para a existência dele quando disse: “… pois a sua viagem será muito longa”. A pessoa depressiva carece de um sentido para a vida. Na verdade, o motor da vida é o motivo que assumimos na vida. Viktor Frankl foi um judeu que resistiu às agruras do campo de concentração criando um motivo que o levasse a superar todo aquele sofrimento. Posteriormente, fundou o método psicológico conhecido como logoterapia. Jesus veio ao mundo para dar um sentido à nossa vida, à nossa existência, por isso Ele disse: “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo”. Usar a Bíblia desse modo é muito salutar e de grande ajuda para qualquer pessoa que esteja passando por uma aflição. É preciso destacar que setenta por cento dos salmos são de lamento, ou seja, de elaboração da dor e do sofrimento. Também é importante ressaltar que temos na Bíblia um livro que se chama Lamentações, o que prova que lamentar a dor, o sofrimento, o infortúnio não é pecado. E nele encontramos um texto muito significativo e de grande valor no processo de superação da aflição, da depressão, que diz: “… lembro-me também do que pode me dar esperança” (Lamentações 3.21, NVI). A Bíblia pode e deve ser usada para ajudar a pessoa aflita, deprimida, angustiada a superar seu infortúnio, desde que seja usada a partir de uma direção do Espírito Santo, que é suave como a brisa que tocou no profeta Elias e o trouxe para fora da caverna escura onde ele estava. Devemos usar a Bíblia para ajudar os aflitos de forma empática, ou seja, buscando o máximo possível nos colocarmos no lugar onde eles estão, sentindo o que estão sentindo. O evangelho de João diz que Jesus, o Verbo de Deus, “tornou-se carne e viveu entre nós” (1.14). Digo que Jesus entende de gente, porque Ele se fez gente como a gente.

#Depressão

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