• Jaime Kemp

A graça de Deus na escuridão



Onde está o seu Deus?” – os inimigos do salmista lhe perguntavam repetidamente (Salmos 42.10). E o próprio salmista também se questionou a esse respeito: ‘Direi a Deus, minha Rocha; Por que te esqueceste de mim?’ (Salmos 42.9). E ainda: ‘... Por que me rejeitaste?’ (Salmos 43.2). Houve ocasiões em que também fiz essas perguntas. Pedia a Deus que me desse paz, mas ela não chegava. Recorri às promessas das Escrituras e procurei me firmar nelas, mas não via sua concretização em minha vida. Eu sabia que Deus estava ali, perto de mim, mas honestamente não sentia sua presença. Estava andando no escuro.” Judith Kemp

Era assim que minha esposa, Judith, se sentia quando mergulhou em um profundo abismo de depressão. Ela chegou ao ponto de não encontrar mais motivo para viver. Andei ao seu lado nos momentos mais escuros de seu estado depressivo. Descobri que entender completamente a perplexidade e a profundidade da dor que essa doença causa é totalmente impossível para quem nunca a enfrentou. Isso vale também para alguém tão próximo, como o cônjuge. Judith parecia fisicamente saudável: não usava muletas ou curativos, não tinha cicatrizes visíveis nem sangramentos. No entanto, havia aquela dor incessante e indefinida, algo que não podia ser apalpado ou aliviado com o simples uso de um medicamento. Parecia impossível escapar dessa dor. Ela era persistente e só permitia alguma trégua nos breves momentos de sono, mesmo assim, agitados. Eu me perguntava, temeroso, se algum dia ela conseguiria sair daquela escuridão. Creio que mesmo ela até chegou a duvidar que algum dia Deus mudasse seu quadro. Estava perdendo a esperança. E quando ouvia alguém dizer que cristãos nunca ficam deprimidos, ela afundava ainda mais em sua desesperança e dor. Penso que a experiência pela qual Judith passou encontra sua melhor descrição nas palavras do salmo do rei Davi: “Senhor, diante de ti estão todos os meus anseios; o meu suspiro não te é oculto. Meu coração palpita, as forças me faltam; até a luz dos meus olhos se foi” (Salmos 38.9-10). “Eu passava a maior parte do dia deitada, escondida sob os cobertores. Não queria sair de casa, tinha imensa dificuldade para decidir coisas simples, até pensar... A alegria tornou-se um sentimento do passado; na verdade, achava que nunca conseguiria sorrir outra vez. Medos absurdos assombravam minha vida. Por exemplo, tinha medo que a comida que servia para a minha família estivesse contaminada. Receava a possibilidade de adoecermos e de haver plantas venenosas em nosso jardim. Temia cuidar de minhas filhas, pois achava que podia machucá-las ou prejudicá-las por descuido. Fiquei nesse estado, padeci desse mal durante um ano inteiro. O que eu não sabia naquela época, mas posso afirmar agora, é que estava sofrendo de depressão. Meus sintomas eram típicos, mas cada pessoa apresenta um quadro. Algumas reclamam de insônia, perda de apetite, agitação, palpitações, irritabilidade, fadiga ou paranoia. A depressão tem sido descrita como ‘a doença da alma’. Aparentemente o salmista sentiu a mesma dor. Nos Salmos 42 e 43 ele questiona três vezes: ‘Por que você está tão triste assim, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim?’ (Salmos 42.5, 11; 43.5). No meu modo de entender essa é uma excelente maneira de descrever a alma que sofre, a alma abatida. Nos Salmos 42.3 ele ainda diz: ‘Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite’. Essa era a minha realidade na época. Ele também registrou: ‘Um abismo chama outro abismo...’ (Salmos 42.7). Um dos aspectos mais frustrantes da depressão é que ela não afeta apenas a alma. Ela invade todas as áreas da vida. Relacionamentos são afetados. Em alguns casos o cônjuge pode se sentir incapaz ou desinteressado, tanto para ajudar como para fazer companhia (nunca me canso de agradecer e louvar a Deus pela dedicação de meu marido durante aquele período). Amigos se cansam. Colegas de trabalho sentem-se prejudicados com a ineficiência que a pessoa demonstra. Por sua vez, ela sabe que isso está acontecendo, mas não consegue reagir e teme perder o emprego. Eu vivia atormentada com os ‘E se?’. E se eu não melhorar? E se não conseguir cuidar da minha família? E se eu enlouquecer? Relembrando agora o que aconteceu comigo, penso que um fator que teria me ajudado naquela fase tão difícil e conturbada seria saber que não era a única a me sentir daquela maneira. Também aceitar o fato que somos corpo, alma e espírito e que uma parte não pode ser separada do todo. Problemas emocionais causam problemas físicos e vice-versa. Para mim tornou-se inquestionável que pessoas deprimidas necessitam de assistência física, emocional e espiritual. Deus nunca respondeu à minha pergunta: ‘Por quê?’. Hoje, mais de quarenta anos depois, o que posso dizer de concreto é que a superação da depressão que sofri aconteceu aos poucos. Não foi num passe de mágica. Houve uma conjunção de vários fatores: o aumento de minha percepção da graça de Deus, o amor e aceitação dos que me rodeavam, o aconselhamento específico e, por certo, a ação do Espírito Santo em mim. Compreendi que Deus não tem obrigação de responder a seus filhos o motivo das provações. Ele quer que confiemos nele, mesmo que não saibamos o porquê de sermos afligidos: ‘Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor; planos de fazê-los prosperar e não lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro’ (Jeremias 29.11). Antes da depressão meu conhecimento sobre a graça de Deus era limitado. Sabia sobre a graça salvadora, mas o aspecto prático dessa graça, interagindo no dia a dia das pessoas era novo para mim. Precisei crescer na graça, compreender que a graça é algo que me é dado sem que, na verdade, eu mereça; algo que não posso obter nem pagar. Ela é dada de graça!” Judith Kemp

Deus sabe o que sentimos, o que sofremos, quais são nossos anseios e angústias e nunca nos abandona. Atualmente, vivemos uma época difícil, em que as pressões a que as pessoas são submetidas, em diversas áreas, são inúmeras e inclementes. Mesmo aquelas que não são exigidas com tanto rigor sofrem para provar que estão totalmente preparadas e têm competência para corresponder às imposições, até mesmo culturais, da contemporaneidade. Muitas vezes, tanta exigência adoece a mente, a alma e o corpo. Não são apenas os adultos que são atingidos pela depressão. Crianças e adolescentes têm sua autoestima destruída pelo bullying que sofrem de colegas de sua escola ou por “amigos” na Internet. As mídias sociais cada dia mais se apoderam dos jovens, que por sua vez se abandonam nesse mundo virtual que os separa da presença real dos pais, da família e dos próprios amigos. É mais fácil e menos comprometedor conversar pela telinha de um celular do que olhos nos olhos. Concordo que a Internet provocou uma evolução fenomenal no mundo contemporâneo, porém também trouxe com ela muitas armadilhas perigosas, não somente aos adultos, mas infelizmente aos jovens, que se não forem acompanhados pelos pais ou responsável correm sérios riscos, já que alguns jogos incentivam o suicídio, sites enganadores podem convencê-los a participar de pornografia e outras coisas prejudiciais. Adolescentes e jovens podem se tornar presas fáceis na rede. Mesmo amando viver, temos de admitir que atualmente há muitas motivações que podem levar uma pessoa à depressão. Mesmo se elas não existissem, o simples fato de andar por este mundo sem a bênção da graça de Deus torna tudo mais difícil mesmo. Por isso devemos conhecê-la profundamente, estudar e meditar sobre ela e, principalmente, nos apoderarmos dela. Mas como ajudar de modo prático as pessoas que estão à nossa volta sendo castigadas pela depressão? Em primeiro lugar, ore por ela e para que Deus lhe dê sabedoria para ajudá-la no que for necessário e de maneira adequada. Também não se esqueça de que poder contar com uma pessoa que saiba ouvir, que não julga, que não pretende dar solução para cada desabafo, que não tenta resolver a situação como se fosse dona de todas as respostas certamente significa uma luz, mesmo que tênue, para quem está desesperado tateando no escuro. Esteja alerta à oportunidade de orientar essa pessoa a procurar ajuda e assistência profissional, seja de médico, psicólogo, psiquiatra e/ou pastor. Mesmo que ela concorde com isso, não deixe de estar por perto sempre que possível, pois uma pessoa deprimida tem tendência ao isolamento. Convide-a para sair, ir à sua casa, à igreja, a um passeio, vá visitá-la. “Devo admitir que antes de passar por aquela experiência tão profunda, complicada e dolorida eu não era uma boa conselheira. Era crítica, indiferente, impaciente, oferecia fórmulas, regras e respostas fáceis, não tendo tanta compaixão como deveria pela pessoa aflita. Agora sei o que significa chorar com os que choram e me alegrar com os que se alegram. Nos Salmos 42 e 43, o salmista aconselhou à sua alma abatida e perturbada: ‘Ponha sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus’ (Salmos 42.5, 11; 43.5). Finalmente chegou o dia em que consegui louvá-lo; e o meu louvor era: ‘... para o louvor da sua graciosa graça’ (Efésios 1.6).” Judith Kemp*

A vida nem sempre é um mar tranquilo. Às vezes, ondas gigantescas podem sacudir nosso barco tentando afundá-lo. Porém, precisamos e podemos sempre contar com a graça de Deus, incessantemente oferecida, nunca rejeitada, e suas promessas que não podem ser quebradas: “Eu sou o Senhor, o Deus de vocês; eu os seguro pela mão e lhes digo:Não fiquem com medo, pois eu os ajudo” (Isaías 41.13, NTLH). * Os depoimentos de Judith Kemp foram extraídos do livro Depressão e graça, Editora Vida, 2001.

#Depressão

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