O que Deus espera de um pai



Desde a mais tenra infância, crianças aprendem imitando. Como pequenos artistas, observam e reproduzem gestos, atitudes e palavras. Ainda no berço, já se mostram bons atores, entram em cena e acompanham a reação da plateia. Logo memorizam o script e um dia após outro constroem seu caráter. O método milenar de aprendizado é o “do it yourself”. Observe e reproduza, faça você mesmo! Dessa constatação depreende-se a enorme responsabilidade dos pais. Seus filhos serão a sua cara! Pais podem iludir a sociedade, serem hipócritas na igreja, mas dificilmente enganam quem vive debaixo do mesmo teto. Os sentimentos ocultos no coração vêm à tona quando bate o estresse ou perante as vitórias e provações. Nessas horas, o filho aprende quem é o seu pai, pelo bem ou pelo mal. A Bíblia ordena que os pais incutam nos filhos a Palavra de Deus; explica, com muitos exemplos, que não se trata tão somente de um ensino “formal”, mas é a transmissão de razão com emoção na prática diária, dentro e fora de casa. Os valores paternos estão no coração e se traduzem em atos. Diante dos fatos, o impacto de palavras é vento, são as atitudes que educam. Jesus disse que os pais sabem dar boas coisas a seus filhos. Não darão uma pedra ao que pede pão ou uma cobra por peixe. São provedores, como Deus; ou quase, porque Jesus acrescentou: “Se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” (Mateus 7.7-11). Note que em sua comparação Jesus não se delongou nos elogios costumeiros ao Dia dos Pais! Ele põe em contraste a bondade do Pai celestial com “vós que sois maus”. É uma chamada a reconhecer o potencial de maldade que está no fundo do coração natural do melhor dos pais terrestres. É um alerta. Ralph W. Emerson diria: “O que você é fala tão alto aos meus ouvidos que não ouço o que você diz”. Pais pregadores de bons valores têm sua prova de fogo em casa, na maneira como tratam sua esposa e filhos.

Pais, não provoqueis vossos filhos à ira O professor André e o engenheiro Eduardo eram assíduos na igreja, com suas esposas e filhos. Quem os olhasse de longe acharia as duas famílias parecidas: mulheres dedicadas, filhos disciplinados, todos sempre presentes nos cultos e retiros. Mas um olhar indiscreto para dentro dos lares revelaria uma diferença fundamental nos relacionamentos pai-filho. Diante de uma nota baixa, Eduardo consolava e encorajava os garotos. Humildemente, colocava-se na posição de quem estava no mesmo barco que eles. Tinham dificuldade em matemática? A equação não fechava? Ele sentava com o filho, lia o enunciado, ensinava e ajudava a resolver o problema. E assim caminhavam juntos. André, por sua vez, vivia com a agenda repleta de compromissos e palestras bem-elaboradas, que rendiam artigos prontos para o informativo da igreja. Tinha assuntos mais importantes a tratar do que perder tempo com probleminhas de criança na escola. Matriculou os filhos no melhor colégio da cidade e exigia resultados. Ai daquele que trouxesse um boletim com nota vermelha! Condenava-o a estudar, recluso no quarto, horas a fio. Na adolescência, a submissão resignada das crianças diante da dureza do pai transformou-se em ira mal contida e finalmente em hostilidade declarada. Passaram a contestar os valores e a rejeitar a religião paterna. O pai era um grande mestre e tinha uma retórica exemplar. Enfatizava: “Filhos, obedecei a vossos pais”, mas não aplicava a si mesmo a parte que lhe cabia: “… e vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira” (Efésios 6.1-4). Acertou na lei, mas falhou na graça. E NUNCA MAIS CAMINHARAM JUNTOS. Felicidade de pai para filho É dito de Noé que ele “andava com Deus” (Gênesis 6.9) e que esse diferencial em relação aos seus contemporâneos valeu-lhe salvar sua família. A corrupção da sociedade atual não parece ser muito diferente da dos tempos pré-diluvianos. Como salvar a família nos dias de hoje? Mais do que um conselho pedagógico interessante, os mandamentos enunciados por Moisés antes de o povo entrar em Canaã ainda são a receita da felicidade (vv. 2 e 3) para os “pais, filhos e filhos dos filhos”. Vale a pena conferir: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas” (Deuteronômio 6.6-9). Aplicado aos dias atuais, esse ensino poderia ser parafraseado assim: “O que eu vou lhe dizer hoje é mais que uma ordem. É coisa para você guardar no coração, para estar no centro das suas motivações. O tempo todo, repassa as palavras de Deus aos seus filhos. É nas situações práticas do dia a dia que você vai instruí-los de um jeito que nunca mais esqueçam. Seja no café da manhã, almoçando ou jantando, não perca a chance de conversar com eles sobre o que as Escrituras ensinam. Se estiverem assistindo a um filme na TV, aproveite os intervalos para chamar a sua atenção sobre o certo e o errado. No trânsito, a caminho da escola, repita palavras de ordem como esta: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força’. Mais tarde, quando forem grandes, vão se lembrar do mandamento. Faça isso também durante os passeios e nas viagens de férias. Quando forem deitar, conte-lhes uma lição que você aprendeu lendo a Bíblia e ore com eles. Ao acordar, antes de sair correndo, recorde-lhes uma passagem das Escrituras e entregue a família toda aos cuidados do Senhor. Quando você for digitar uma mensagem, lembre-se de que Deus está sempre online e seus filhos acompanham suas postagens nas redes sociais. Se postar uma selfie, que a sua pose reflita o desejo de agradar ao Senhor. Os seus filhos precisam ver que você vive a Palavra de Deus na prática. Eles observam quando você entra e sai da internet e em que sites você surfa”.

E andavam ambos juntos O pai que objetiva a felicidade no lar aplica esses princípios na vida cotidiana. Seu maior desejo é andar com Deus e com seus filhos numa relação íntima com o Pai Celestial (Salmos 25.14). Exemplo disso levado ao extremo é o relato de Gênesis 22, em que Abraão oferece Isaque em sacrifício. “Então, disse a seus servos: Esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós. Tomou Abraão a lenha do holocausto e a colocou sobre Isaque, seu filho; ele, porém, levava nas mãos o fogo e o cutelo. Assim, caminhavam ambos juntos”. Há pai que, em vez de colocar a lenha nas costas do filho, teria carregado o filho nas costas! Abraão ensina que cada um deve carregar a própria cruz. No terceiro dia de marcha, o pai disse aos empregados que os acompanhavam para aguardarem na trilha com o jumento. Ele e o filho iriam até o monte, adorariam e voltariam para se encontrar com eles. Há horas sagradas demais para jumentos e mentes servis. O momento era íntimo demais para comportar quem quer que fosse além de pai e filho. Ambos prosseguiram no caminho. O texto insiste na repetição: “e seguiam ambos juntos”. Lado a lado, o velho Abraão e o jovem Isaque. Não conversaram muito na subida íngreme. O texto sagrado reporta apenas um diálogo entre o centenário patriarca e seu filho: “Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho! Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Respondeu Abraão: Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto”. Poucas palavras, fé prática, em movimento. Confiança total que “Deus proverá”. Aprenda isso Isaque! Abraão não sentou a criança num banco para dar-lhe uma aula de teologia. Amarrou-a sobre um altar e levantou o cutelo diante dos olhos esbugalhados do rapaz. Ele não perguntou: “Filhinho, você quer entregar sua vida ao Senhor?”, mas disse no íntimo: “Senhor, eu te entrego a vida do meu filho, meu filho amado, tudo o que eu mais amo”. Lendo no fundo dos olhos do pai, Isaque aprendeu o que é “entrega”. Deus desferiu um golpe mortal no senso de posse de Abraão ao ordenar-lhe: “Toma teu filho, o teu único filho, a quem amas” (vv. 12, 16). Deus espera que um pai ame seu filho. Deus espera que um pai ame mais a Deus do que o próprio filho. Deus espera que um pai não ame seu filho como uma posse egoísta sua, mas como “propriedade de Deus” da qual é o privilegiado mordomo. De certa forma, Abraão já havia declarado isso ao circuncidar Isaque (Gênesis 21.4). No monte Moriá, ele “morre para si mesmo” ao apresentar o corpo de seu filho “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Quem morreu no altar não foi Isaque, foi a vontade própria de Abraão. Por isso Deus o abençoou e fez dele um exemplo para todas as famílias da terra.

Pai provedor e protetor Abraão deu àquele lugar o nome de “O Senhor Proverá”. De fato, “provedor” é um atributo de Deus, o Deus da Bíblia, que o Filho apresenta como Pai: Vosso Pai sabe que necessitais... (Mateus 6.32) Tudo o que pedirdes ao Pai (Mateus 14.13) Pai nosso... o pão de cada dia dá-nos hoje (Mateus 6.9-11)

Assim como o filho de Deus encontra refúgio no Pai, pais devem ser portos seguros para os seus. Quando a terra tremeu e sacudiu a cidade de Lisboa na noite de 28 de fevereiro de 1969, morreu mais gente pelo pânico do que pelo terremoto. De fato, o ruído tenebroso vindo das profundezas da terra, a queda de objetos das prateleiras, o blecaute que seguiu ao primeiro sismo, tudo era muito assustador. Os gritos nas escadarias dos prédios, as sirenes e buzinas na rua, nada contrastava mais com a serenidade do meu pai; ele não precisou chamar: num instante, toda a família estava reunida junto à sua cama, orando e entregando-se aos cuidados do Senhor. A paz que ele nos transmitiu em meio ao caos reinante foi uma demonstração concreta de fé e confiança, uma lição impossível de esquecer. Assim mesmo, Deus não espera dos seus que sejam super-homens. É reconfortante ler em Salmos 103.14: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó”. Ele conhece, ele sabe, ele se compadece! E seguiam ambos juntos Deus espera do pai que ande com seus filhos no temor do Senhor. Que o seu caráter e valores reflitam a “imago Dei”. Que seja um pai amoroso porque Deus é amor. E justo também. Um pai provedor como Jeová Jireh, um refúgio protetor como o Senhor Escudo Nosso. Um pai que ensina a misericórdia de Deus agindo com graça. Que incentiva o perdão porque ele mesmo perdoa. Um pai presente, porque pais ausentes não ganham a confiança de seus filhos. “E andavam ambos juntos.” Que assim seja!

#Criaçãodefilhos

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