Fomos pais



Quando finalmente tivermos espaço para todas as nossas coisas, e não precisarmos dividir armários e guarda-roupas com nenhum deles. Quando a casa estiver vazia, os quartos estiverem vazios e a sala estiver vazia. Quando tudo estiver em seu devido lugar, sem brinquedos ou roupas espalhadas pela casa, tudo arrumado como sempre desejamos, sem sinal de uso, então saberemos. Quando o carro estiver vazio, sem as provocações e contendas no banco traseiro, e quando olharmos o retrovisor vazio e enxergarmos apenas as imagens pálidas de nossas lembranças de brigas e broncas, de gargalhadas e lágrimas. Aí então saberemos. Quando a vida também estiver um pouco mais vazia de sentidos, propósitos ou planos, mas estiver cheia de memórias, então saberemos que fomos pais. Quando, enfim, encontrarmos o silêncio que tanto desejamos. Quando não houver mais barulho, sem vozes agudas ou adolescentemente semitonadas, falando todas ao mesmo tempo conosco. Quando seus ouvidos não ouvirem mais as brigas infantis ou as reclamações adolescentes, sem as cobranças desmedidas e as exigências descabidas. Quando não mais existir o som de choro sem causa e gargalhadas sem motivos, então saberemos. Quando nós não precisarmos mais mandar abaixar o volume da televisão ou do som, ou mesmo quando não ouvirmos a nossa própria voz trovejando para que o quarto seja arrumado e a tarefa seja feita, aí sim, finalmente saberemos. Quando reinar a tão esperada, sonhada e planejada paz, e restarem apenas ecos do tempo e da turma do barulho, agora já tão distantes de nós, então saberemos que fomos pais. Quando, por fim, não pesar mais sobre os nossos ombros as responsabilidades que tanto nos cansaram. Quando não tivermos de acordar às 6 horas de uma manhã fria e escura, em pleno horário de verão, para sacudir sonolentos aqueles que não conseguem acordar sozinhos. Quando pudermos acordar tarde no meio da semana e não for feriado, então saberemos. Quando não tivermos mais a obrigação de frequentar reuniões de pais e mestres, de conferir as tarefas e fiscalizar boletins escolares, quando as férias forem, finalmente, só nossas e não deles, e pudermos aproveitar sem dor de consciência as promoções de baixas temporadas, aí sim saberemos. Quando não existir mais a necessidade de agendar vacinas, exames e consultas e pudermos assistir à sessão da tarde, sentindo saudades de quando tínhamos de dividir a TV e o sofá apertado. Então, nesse dia, saberemos que fomos pais. Fomos pais quando os assistimos, silenciosamente, cometendo os mesmos erros que cometemos, tendo o coração cheio de esperança de que aprendam com os deles como aprendemos com os nossos. Fomos pais quando os vimos sofrer e impotentes oramos para que Deus lhes desse forças para superar a dor. Fomos pais quando demos exemplo para um tempo que não sabíamos se algum dia chegaria. Fomos pais quando aprendemos a ser ultrapassados na estatura, no conhecimento e nas realizações, e ainda sentimos orgulho de tudo isso. Fomos pais quando percebemos nossa influência se dissipando e aprendemos a não ser mais necessários para a sobrevivência deles. Sim, fomos pais quando corrigimos (Hebreus 12.5-7); fomos pais quando lhes demos o que tínhamos de melhor (Lucas 11.11-13); fomos pais quando entesouramos para eles (2 Coríntios 12.14); fomos pais quando exortamos, consolamos e admoestamos (1 Tessalonicenses 2.11-12). Fomos pais quando amamos como Deus nos amou.

#Criaçãodefilhos

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