Meu primeiro Natal



E o Natal era fútil. Natal das ambiguidades assumidas. Depois eu conheci Jesus e, com ele, o verdadeiro Natal!

Em nossa casa, o Natal sempre teve conotação de festa e celebração. Tanto a família por parte de pai como por parte de mãe celebrava com festa, ajuntamento, muita comida gostosa e muitos cheiros que só se sentia àquela época do ano: peru assado, tender com ameixas e pêssegos e outras guloseimas que o tempo e o espaço não me permitem detalhar.

Quando criança, eu adorava aquela “bagunça” toda: o mundaréu de primos amontoados para dormir na casa de algum dos tios, ou na nossa própria casa; a folga total, sem pensar em escolas e professores e tarefas de casa; os dias quentes e claros e, em Campinas, extremamente azuis de verão. Especialmente, na memória infantil, o tempo ao redor da árvore de Natal, de cantar canções natalinas e repartir presentes.

A vida parecia risonha e franca. É claro que se escondiam das crianças os conflitos e ansiedades do mundo adulto, as guerras conjugais, o abismo das gerações que chocolates e brinquedos não podiam transpor. Era feliz o Natal das ambiguidades que se ignoram. O Natal da infância.

Na adolescência e início da juventude, a festança ainda era a mesma, com os cheiros e sons costumeiros, com a presença tumultuada da família, já mais maltratada pelos conflitos internos difíceis de esconder. Alguns primos começaram a não aparecer mais. Nós, os que aparecíamos, fazíamos muitas vezes uma festa separada, longe da conversa adulta e sufocante da sala, longe dos olhares ansiosos ou repressivos das mães. Íamos para um quarto qualquer, onde houvesse, é claro, um “som”, e trocávamos Haendel e os hinos solenes pelo som rasgado do Carlos Santana, ou do Elton John e do Led Zeppelin; de vez em quando, Sérgio Mendes. Conversávamos sobre os sonhos que povoam a mente jovem: viagens, músicas, namoros. E sobre alguns pesadelos também: o fantasma do vestibular, a futilidade de viver, a hipocrisia do mundo adulto com suas instituições – família, trabalho, igreja. Fumávamos e ouvíamos “rock ‘n’ roll”. E o Natal era fútil. Natal das ambiguidades assumidas. Não era exatamente triste. Só vazio. E cínico. O Natal da adolescência.

Depois eu conheci Jesus, e com ele o verdadeiro Natal. Assim, meu primeiro Natal foi o de 1973. Primeiro Natal de um menino virando moço e descobrindo Deus, Deus que no primeiro Natal virou menino a fim de nos descobrir em nossas ignorâncias e futilidades e nos tirar da morte para uma nova vida.

Por vezes eu já sentira essa nova vida tentar se insinuar e me envolver – no fim do ano, quando, como família mais restrita, pai, mãe e irmãos (éramos seis: quatro irmãos, duas irmãs), um abraçava o outro e rindo ou chorando, ou ambos, desejávamos um ao outro um feliz ano novo e, às vezes, aproveitávamos para pedir perdão de alguma coisa mal feita no ano que acabava de ficar para trás. Podia não ser perfeito, mas era um momento feliz. Para mim, pelo menos, sempre trazia um gostinho de esperança, de amor, de camaradagem. Trazia um sentimento estranho e gostoso de sentir-se em casa, de ter família, de pertencer, que, de todos os sentimentos, é o mais denso e mais compensador que alguém pode experimentar. Aquele era um momento bom porque decretava, para cada um e para todos nós, que a luz é maior que as trevas; o perdão maior do que a injustiça, maior mesmo que a justiça; a graça maior do que todas as desgraças.

É, eu já havia sentido essas insinuações da graça, essas visitas curtas da graça, surpreendentes e inesperadas. Entretanto, só no Natal de 1973 é que compreendi que a visita não precisava ser tão curta, nem tão inesperada, embora sempre surpreendente. Durante todo o ano de 1973, a graça havia me perseguido implacavelmente. Naquele ano, eu tranquei matrícula no curso que fazia de Ciências Humanas na Unicamp para poder viajar pelo Brasil anunciando Jesus. Costumávamos cantar na época, com o conjunto jovem do qual eu fazia parte (Vencedores por Cristo), esta canção:

Nas Estrelas Letra e Música: Ralph Carmichael Versão p/ português: Carlos Oswaldo Pinto

Nas estrelas vejo a Sua mão E no vento ouço a Sua voz, Deus domina sobre terra e mar: O que Ele é pra mim?

Eu sei o sentido do Natal Pois na história tem o seu lugar Cristo veio para nos salvar O que Ele é pra mim?

Té que um dia Seu amor senti, Sua imensa graça recebi Descobri, então, que Deus Não vive longe lá no céu, Sem se importar comigo

Mas agora ao meu lado está, Cada dia sinto o Seu cuidar Ajudando-me a caminhar Tudo é Jesus pra mim!

E no caminho de muitas canções, o menino burguês foi virando gente. Ao hospedar-se com brancos e negros, com pobres e ricos, com gaúchos, mineiros, baianos e recifenses, o menino entendeu, quem sabe pela primeira vez, a “rota do Natal”, a rota de identificar-se, de assumir as belezas e as feiuras deste nosso país tão grande e sofrido.

E, no caminho do Natal, o menino “metido a rico” foi caindo pouco a pouco na “real” ao compreender que o evangelho, a boa notícia, só é boa mesmo para os pobres. Os ricos deste mundo estão enfastiados de suas próprias festas e banquetes e só poderão entender de verdade o Natal no dia em que caminharem com José e Maria até a periferia da cidade pobre e pequena de Belém para ver o recém-nascido que, por falta de maior recurso, nasceu no “cocho” de um estábulo e foi embrulhado por sua mãe em panos de algodão que sua dignidade pobre permitiu. Só quem andar até lá compreenderá o Natal – o resto é presépio de “shopping” e pico de vendas do comércio.

Ainda curto os cheiros e as comidas do Natal. Mais do que antes, curto a família. A fartura excessiva, principalmente desta época, com a qual ainda convivo e da qual participo, me carrega ainda de culpas reais e falsas, que eu tento aliviar compensatoriamente servindo à igreja, servindo aos aflitos, cantando em serenatas e hospitais, repartindo com os que pouco ou nada têm um pouco de amor, uma palavra de conforto, uns talentos, uma parte (simbólica e autodidática) dos muitos benefícios materiais com que Deus sempre cercou nossa vida. Às vezes, reparto uma oração com alguma alma aflita porque a minha própria alma têm sido liberta de muitas aflições e angústias. O Salvador chegou e, desde então, é Natal. Não é exatamente perfeito, mas é perdoado. Não é exatamente puro, mas é feliz. Feliz Natal.

#Natal #Jesus

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