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A aspereza da ausência da graça



Após uma discussão com meu marido sobre o fato de ele não dirigir o carro como eu achava que deveria, minha filha fez o seguinte comentário: “Mamãe, é necessário permitir que as pessoas errem!”.

É realmente muito difícil eu aceitar erros, sejam meus ou de outros. Cresci com o sentimento de que deveria fazer tudo certinho. À primeira vista, parecia fácil viver com esse padrão, pois meus pais me passavam em detalhes o que, na opinião deles, era o certo. Eles não somente me davam as regras, mas também deixavam bem claro quando eu errava. A meu ver, foram raras as ocasiões em que consegui atingir as altas expectativas que tinham a meu respeito. Porém, um sentimento sempre persistia: que se eu tentasse mais, conseguiria chegar lá. Quando atingia o que me havia sido proposto, eles logo achavam um jeito para acrescentar algo mais ao que fizera ou então tinham sugestão de outra forma que eu deveria ter usado para atingir os mesmos resultados. No início, ficava frustrada; depois, brava por notar que praticamente nunca conseguiria satisfazê-los.

As poucas vezes em que o fiz, senti-me muito bem, mas percebia que havia atingido o alvo por meio de meu próprio esforço e habilidade. Dessa forma, eu ia dependendo mais de mim do que de Deus. Minha igreja também sempre deixou bem claro o que eu deveria, ou não, fazer na vida cristã, então procurava agir da forma mais certa possível também naquele contexto.

Até que chegou o tempo em que cansei de “nadar, nadar e não chegar à praia”, e aí me rebelei. Eu estava seguindo o script direitinho, mas os resultados obtidos ficavam aquém do esperado.

Agora compreendo que o conceito da graça era muito falho em minha vida. Tanto meus pais como minha igreja não me permitiam errar, insistindo no “você deve agir assim ou assado…”, e eu simplesmente aceitava tudo como regra de vida.

Minha vida cristã começou na graça, mas passei a vivê-la nas obras (Gálatas 3.3). Meu conceito de graça estava profundamente comprometido com minhas atitudes baseadas no fazer.

Avaliando esse enfoque de vida, consigo distinguir três posturas utilizadas como escape para não depender da graça de Deus:

1. AUTOPIEDADE. “Eu jamais vou conseguir fazer isso, portanto não vou nem tentar! Não tenho capacidade porque sou fraco(a)/ burro(a)/incompetente/feio(a), etc. Espero que sempre haja alguém para fazer as coisas por mim!”

2. REBELIÃO. “Tenho tentado de todas as formas, mas nunca consigo atingir aquilo que esperam de mim. Estou furioso(a) com essas pessoas e também com aquelas que, pelo mesmo motivo, têm me rejeitado. Nunca mais ninguém vai me dizer o que eu devo fazer nem vão me enquadrar em uma forma!”

3. FARISAÍSMO. “Vou conseguir! Sempre consigo viver pelos padrões impostos. Só me diga quais são as regras. Por falar nisso, você reparou como desempenhei bem a última tarefa? Se alguém estiver errado, é você e não eu, porque faço tudo estritamente correto!”

No desenvolvimento desses comportamentos, os pais transmitirão a seus filhos suas características com um conceito deturpado da graça que, certamente, os afetará de forma negativa! (Provérbios 24.32).

Se você não se permite errar, também não permitirá que seus filhos o façam. Você pressionará seus filhos a conseguirem as maiores notas possíveis. Não permitirá que derramem o leite, que percam a hora, que demonstrem uma emoção negativa, que faltem à igreja, e a lista vai por aí afora… Caso falhem, por menor que seja, em cumprir alguma das regras, a punição será severa, sem que se leve em consideração se a ofensa foi intencional ou não. A preocupação estará mais em apontar o fracasso do que o sucesso. Essa atitude transmitirá aos filhos que Deus também está sempre pronto a pegar nossos erros e nos fazendo pagar pelo que fizermos.

Vejamos o que os filhos de pais com essas posturas assimilam:

1. AUTOPIEDADE: Eles acharão que devem buscar alguém mais forte para “salvá-los” deste mundo difícil e cruel. A mensagem transmitida a eles será: “Sei que sou pecador. Aqui está a lista dos meus pecados, como posso esperar ser aceito por Deus ou pelos outros? Pobre de mim, sou uma vítima incapaz de me virar neste mundo mal, que não me aceita como sou. Como esperar, então, que eu faça o que Deus quer que eu faça?” (vemos na Bíblia algumas pessoas com essa característica – Moisés e Jeremias). Essa atitude transmitirá a eles o hábito de autopunir-se e também poderá levá-los a utilizar chantagem emocional e manipulação para conseguirem o que desejam.

2. REBELIÃO: Eles aprenderão a ser amargos e rejeitarão as mesmas coisas que você rejeita. Dessa forma, assumirão o controle das situações, até mesmo das provações, deixando Deus fora de suas vidas, como se assim pudessem evitar o sofrimento. A mensagem transmitida é: “O mundo certamente será mal, então estejam preparados; fiquem no controle e deem o troco!”.

Essa mensagem é acompanhada de outra, mais sutil: é como se Deus estivesse lá no céu esperando para ver quando vamos errar para cair em cima de nós! Ou então, quando estivermos em uma situação em que não estejamos preparados, ele puxará o tapete sob nossos pés, de forma que é melhor não ficarmos muito alegres, pois a alegria pode acabar de repente!

3. FARISAÍSMO: Eles certamente se sentirão superiores aos outros. A mensagem transmitida será que Deus está mais preocupado com o que fazemos do que com o que somos (fazer é mais importante do que ser). Os filhos receberão a mensagem de que sempre devem estar no controle de tudo, como se a perfeição fosse o segredo para serem sempre aceitos, tendo assim dificuldade em perdoar os que não atingem os padrões adotados. Mesmo em meio ao sofrimento, serão instigados a adotar soluções rápidas, pois os pais acreditam que é preciso estar no controle de toda e qualquer situação. A luta em tempos de provação é encarada pelos pais como fracasso. E o pior de tudo é que, ao conseguirem atingir os padrões impostos, pensam que descobriram uma forma de vencer por si mesmos. Isso acabará lhes ensinando que sempre deverão estar certos.

Será que é de forma consciente que passamos esses ensinamentos aos nossos filhos? É claro que não! Mas nossas atitudes traem nossas palavras! Dizemos que Deus nos aceita como somos, mas nossas listas de exigências se tornam impossíveis de ser atingidas. Sim, acabaremos falhando em alguma coisa, pois somos pecadores. Porém, Deus nunca nos rejeitará nem nos abandonará. Ele nunca nos deixará de amar (Romanos 8.35-39). Sua GRAÇA é estendida até nós!

Todos esses estilos de vida são formas de buscar ACEITAÇÃO. A lei exige perfeição, enquanto a graça reconhece que somos imperfeitos, e sem a justificação de Deus nunca conseguiremos alcançar os padrões. A graça cancela o débito adquirido com os deveres e cobre multidões de pecados (Romanos 5.20). Porém, temos a tendência de não aceitá-la como suficiente!

Sempre lutei demais para conseguir aceitação, enquanto a graça simplesmente eliminava qualquer tentativa de conseguir atingi-la por meus próprios esforços (Romanos 5.6-10), ou seja, minha “performance” baseia-se na aceitação que Deus já me deu e não em algo para o que tenha de me esforçar para conseguir (Romanos 6.22).

Como chegar ao ponto de conseguir entender e aceitar essa graça?

1. Reconheça a postura que você tem adotado: AUTOPIEDADE? REBELIÃO? FARISAÍSMO?

2. Pondere no que pode acontecer se deixar esse estilo de vida, ou seja, você não consegue viver sem a aceitação das pessoas?

3. Se você reconhece que a sua motivação não é aceitar a graça de Deus, mas obter mais a aceitação das pessoas do que a do próprio Deus, saiba que ele nos aceita como somos (Romanos 8.1, 33). Arrependa-se das tentativas de conseguir aceitação pelos seus próprios meios.

O arrependimento soará diferente para cada uma dessas posturas:

Para aqueles que agem com autopiedade, aceitar a graça de Deus significará que começarão a fazer algo que antes esperariam que outra pessoa fizesse.

Aqueles que agem com rebelião não negarão a dor de serem rejeitados, mas entregarão essa dor a Deus em vez de exigirem que outros vejam o quanto foram machucados. Também poderão oferecer perdão ao seu próximo.

Para aqueles que adotam a postura do farisaísmo, ficará evidente o quanto se encontram aquém dos planos de Deus para santificação e aceitação e conseguirão aceitar o fato de que são pecadores, sem que se condenem a si mesmos. Poderão, então, descansar na aceitação de Deus.

4. Você poderá dizer: “Já tentei o caminho de Deus, e ele não me deu o que realmente preciso”. Lembre-se: ele sabe do que realmente precisamos!

5. Quando nos achegamos a Deus em qualquer momento em que não nos sentimos aceitos, mesmo que por nós mesmos, ele nos assegura sua aceitação. E então podemos nos levantar e transbordar essa graça a outros (Romanos 15.7; Lucas 6.31).

Somente a graça de Jesus pode nos libertar dos padrões impostos. Não somos dignos de ser aceitos, mas ele nos oferece gratuitamente sua graça e aceitação. São presentes! Por falar nisso, você já os recebeu?

#Natal #Graça #Jesus

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