Lidando com a depressão do cônjuge



Fabiano era um homem muito ocupado. Gerenciava uma empresa multinacional e havia conquistado a confiança de seus superiores por meio de trabalho árduo e uma disciplina espartana em todas as suas tarefas. Era benquisto por seus colegas e também por seus subordinados, e alguns afirmavam que a empresa só havia chegado ao patamar onde se encontrava devido à dedicação de Fabiano, que não se importava em trabalhar dez, algumas vezes doze horas por dia para atingir seus objetivos – ou melhor, os objetivos da empresa. Como recompensa, ele era muito bem remunerado e tinha tido uma boa ascensão social, passando a frequentar jantares e reuniões com pessoas importantes no meio empresarial e político e já havia conseguido acumular um patrimônio que lhe dava um bom conforto. Somente uma coisa não corria bem na vida de Fabiano: sua esposa Ângela sofria de episódios de mudança de humor, aos quais os médicos diagnosticaram como depressão. Ela passava boa parte de seu dia deitada em sua cama e com a maioria das janelas da casa fechada. Com a única filha já adulta e morando fora de casa, ela não tinha muitos afazeres domésticos e tampouco buscava outras atividades profissionais, pois sempre julgava que “não daria conta”. Após alguns anos de tratamento medicamentoso sem resultados significativos, o casal foi em busca de terapia. Fabiano queixava que Ângela nunca o acompanhava em jantares da empresa nem tinha disposição para receber colegas ou superiores da empresa na casa deles, o que o deixava muito frustrado. Ele afirmava que não entendia o motivo da “depressão” da esposa, uma vez que ele provia todas as suas necessidades materiais e procurava todos os anos fazer uma viagem ao exterior por pelo menos quinze dias para desestressar, e a esposa sempre o acompanhava. Ele também afirmava que era moralmente íntegro e jamais se envolvera com qualquer pessoa fora do casamento. A depressão de Ângela era um peso para ele, que tinha de se dividir entre o cuidado com sua carreira e as demandas que a “doença” dela acarretavam. Entretanto, Ângela afirmava que, sim, ela tinha tudo do bom e do melhor, só não tinha a companhia de Fabiano! Todas as vezes que ele dedicava mais tempo ao trabalho, a “depressão” de Ângela piorava. Com essa piora, ele aliviava a carga de trabalho para dar atenção à “doença” da esposa e, por conseguinte, ela melhorava. Com a aparente melhora da esposa, Fabiano voltava a dedicar-se ao trabalho, e logo Ângela piorava – num ciclo interminável de melhoras e pioras, aos quais alguns profissionais da área chamariam de “bipolaridade”. Quero destacar com esse caso fictício – mas poderia ser real – que aquilo que muitos profissionais diagnosticam com o nome de “depressão” pode ser entendido como uma disfunção do sistema familiar. A vida familiar é extremamente dinâmica e funciona como um organismo vivo: quando uma parte desse sistema se desequilibra, podem surgir sintomas em outras partes dele. Assim, muitos desses “sintomas” que o sistema familiar apresenta são reflexos de algo que não está bem – como uma febre, que indica que há uma infecção no organismo. No sistema familiar de Fabiano e Ângela, o que não estava bem é que Fabiano tinha uma “amante” emocional. Embora fosse um homem íntegro do ponto de vista moral, várias vezes havia declarado abertamente: “Sou apaixonado pelo meu trabalho!”. Essa “segunda paixão” ocupava o tempo e a prioridade na vida de Fabiano e fazia com que Ângela se sentisse sempre em um segundo plano, e quando ela tentava argumentar com ele sobre seus sentimentos, Fabiano tinha sempre uma série de argumentos plausíveis sobre a utilização do trabalho como um meio para proporcionar a ela o melhor bem-estar possível (incluindo todos os dispendiosos tratamentos psiquiátricos). Como Ângela era mais passional, tinha menos recursos argumentativos. Quando tentava falar das suas emoções, o marido reiteradamente afirmava que “não tinha lógica” no que ela dizia (obviamente, as emoções e a lógica são dois campos distintos de manejo da realidade – complementares e não antagônicos). Assim, a gangorra do humor foi a forma de comunicação não verbal que Ângela utilizou para levar Fabiano à compreensão de suas necessidades. O “fechamento” em seu próprio mundo, tingido de cinza pelo sentimento de derrota diante da “competição” com a “amante/trabalho”, fazia com que ele se aproximasse dela – o pêndulo da paixão voltava-se para ela. Mas assim que ela esboçasse uma reação positiva, abrindo-se para a vida, Fabiano se retirava para “coisas mais importantes” – levando o pêndulo novamente para sua “amante/trabalho”. Dessa forma, a amplitude desse pêndulo foi aumentando e com ele as doses medicamentosas, cada vez com menor efeito. Em nossa sociedade do reducionismo darwiniano biologicista, em que a essência do ser humano é vista somente como resultado de processos neuroquímicos – a sociedade do “homem sem alma” –, afirmar que a depressão pode ser uma forma de comunicar uma disfunção relacional soa como uma espécie de “blasfêmia” ou “algo anticientífico”. E os “consumidores” da ciência querem resultados imediatos, estilo micro-ondas, em que se aperta um botão e em poucos segundos já temos tudo pronto. Todavia, o que a ciência é incapaz de afirmar é se a alteração dos processos de transmissão neuronal (perda na transmissão de neurotransmissores) é o que causa a “depressão” ou se é o resultado desta, ou seja, se uma pessoa se deprime porque “deixa” de produzir certos neurotransmissores, por isso precisa repô-los quimicamente, ou se ela deixa de produzir tais neurotransmissores em função de estados de alteração relacional/emocional/afetiva. E em uma sociedade que supervaloriza o individualismo e despreza plenamente a ideia de que “somos membros uns dos outros” (1 Coríntios 12), é muito difícil para as pessoas pensarem em sua corresponsabilidade na disfunção relacional que leva o outro ao “adoecimento”. Pensar que a depressão, mais que uma alteração neuroquímica, é uma expressão para comunicar uma disfunção relacional é muito difícil para mentes cartesianas, que procuram sempre uma causa para um efeito e não percebem a realidade como resultado de processos. Entretanto, a Palavra de Deus nos incentiva a questionarmos os padrões deste mundo (Romanos 12.2) e afirma continuamente a ideia da mutualidade – “uns aos outros”. Evitemos assim o engano adâmico (foi a mulher que tu me deste) de querer isentar-se da responsabilidade e procuremos sempre avaliar a nossa corresponsabilidade no processo de adoecimento de nosso cônjuge, buscando alternativas para mudanças relacionais que proporcionem uma melhor harmonia e bem-estar para todos. As alterações de humor podem ser efetivamente formas disfuncionais de tentar comunicar que algo não vai bem no relacionamento – e que não é possível (na mente de quem comunica) ser comunicado de outra forma. Tal qual uma mãe que, depois de repetir inúmeras vezes para um filho que não faça algo e não obter resposta, agarra a criança pelos ombros e a chacoalha, promovendo na criança um susto e o pronto atendimento da solicitação. Essa atitude da mãe não significa que ela não ama a criança ou tem raiva dela, mas simplesmente que ela não encontrou outra forma de comunicar aquilo ao filho. Assim, a comunicação pode encontrar formas muito disfuncionais – como um “adoecimento emocional”. Cuidemos com ternura de nossos relacionamentos, por meio de um diálogo permanente, íntimo e fecundo, a fim de evitar os “adoecimentos” e termos de lidar com as consequências em vez das causas. Que Deus nos capacite a isso.

#Estresse #Crises #Casamento

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