Além de línguas, sotaque



“... porque o amor é forte como a morte...” – Cantares 8.6b

Desde os tempos mais remotos tentamos entender e descrever o amor, quem sabe com o objetivo de domesticá-lo para desfrutar ao máximo de sua essência. Salomão diz que ele é forte e o compara ao poder destruidor da morte, a mitologia grega imagina que ele possui os olhos da loucura, Paulo faz o relato mais belo que a literatura conhece, ressaltando que sem ele a vida não tem proveito, e João afirma que ele é a prova visível da nossa relação com Deus, concluindo que o amor é o próprio Criador.

Afinal, quem é o amor? Que língua ele fala, para que dialoguemos com ele? O amor é cantado em verso e prosa de forma contraditória, pois alguns dizem que uma pessoa só ama uma vez na vida, enquanto outros afirmam que cada pessoa possui três amores marcantes em sua existência: o primeiro amor, o grande amor e o amor maduro. Ao que parece, o amor possui uma língua, mas pelo menos três sotaques, que veremos a seguir.

Platão, filósofo grego, dizia que amor é desejo; amamos o que não temos, o que ou quem desejamos, e quando o desejo acaba, o amor termina. Esse amor desejante Platão chamava de eros. Amamos trabalhar quando estamos desempregados, os casais se amam no namoro, mas após o casamento aquele amor desaparece. Quando o desejo é satisfeito, o amor-desejo se vai junto com ele. O Prof. Clóvis Barros Filho diz que “a busca pela satisfação dos próprios prazeres (desejos) é um saco que não tem fundo”, uma vez que esse tipo de amor tende a desaparecer após satisfeito. Baruch Spinoza, filósofo judeu nascido em Amsterdam, entendia que amor é alegria. Amamos aquilo que potencializa e energiza nossa alegria. Esse amor-alegria está ligado aos encontros que temos com pessoas no mundo. Por isso é recomendável aos jovens casarem com alguém com quem já têm amizade, uma vez que é mais fácil trazer a sexualidade, o eros, para uma amizade existente do que a amizade para dentro de uma relação que começou com a sexualidade. O amor-alegria é a felicidade pelo que temos e não pelo que desejamos; não é falta, mas uma presença que nos põe em sintonia com a vida. Infelizmente, em nosso mundo consumista, somos pouco ensinados a celebrar com o que temos; em geral, somos estimulados a desejar sempre mais.

Jesus ensinou que o amor é compromisso sacrificial. Para ele, nosso desejo e alegria não podem ser um fim em si mesmos, mas devem sempre ser direcionados ao próximo. Esse amor, conhecido como ágape, é o que proporciona o verdadeiro prazer e a verdadeira alegria. O amor-compromisso-sacrifício é o caminho da felicidade, uma vez que a maior satisfação que um ser humano pode experimentar na vida é ser responsável pelo sorriso de outra pessoa. Essa é a grande oportunidade que temos de caminhar na contramão do senso comum da satisfação dos desejos egoístas e do acúmulo de coisas. Fernando Pessoa, em seu soneto Amor, diz:

O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p’ra ela, Mas não lhe sabe falar.

A linguagem do amor, em muitos casos, é calar, porque palavras não são suficientes para expressá-lo. Os sotaques do desejo, da alegria e do compromisso são complementares e não excludentes, pois é possível desejar nosso cônjuge, nos alegrarmos na presença dele e nos comprometermos em fazer sacrifícios para vê-lo sorrir.

Para pensar: que sotaque da linguagem do amor precisa melhorar em seu casamento?

#LinguagemdoAmor

  • Twitter Clean
  • w-facebook
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now