A bênção dos netos



Então, foi ela e fez saber ao homem de Deus; ele disse: Vai, vende o azeite e paga a tua dívida; e, tu e teus filhos, vivei do resto.” – 2 Reis 4.7

Se há uma grande alegria que Deus concede às pessoas, nesta Terra, são os netos. Sei disso porque fui agraciado com quatro filhos (três rapazes e uma moça), hoje todos casados e fiéis à Palavra de Deus. Procuram servir ao Senhor nas diversas partes do mundo, onde Deus os colocou, e eles me deram 12 netos! Mas eu saberia disso mesmo se não tivesse netos, pelas múltiplas referências que a Bíblia faz, indicando que os filhos dos filhos são uma dádiva divina, e também delineando obrigações que tanto os pais como os avós têm com relação a eles.

Entre as diretrizes e ensinamentos que a Palavra de Deus tem para os avós, primeiramente, poderíamos começar com o lembrete de que seus filhos constituem uma nova unidade, uma família autônoma. Jesus ensina isso em Mateus 19.4-5, quando, interpelado pelos fariseus, cita Gênesis 2.24: “Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”? Paulo faz referência ao mesmo trecho do Antigo Testamento em Efésios 5.31.

Mas uma nova família constituída não significa uma família que corta todas as ligações anteriores. Existem responsabilidades específicas e conexões afetivas que demandam o entendimento dos papéis tanto dos pais como dos avós. O objetivo é o estabelecimento de uma plena cooperação em vários aspectos familiares, especialmente aqueles direcionados ao encaminhamento dos netos nos caminhos do Senhor.

Resumindo, é necessário que haja compreensão do papel reservado por Deus para cada um – pais (o casal constituindo uma nova família), avós (pais dos pais) e filhos (ou netos). Em uma nova família, isso significa: regência, cooperação e obediência. A necessidade é sempre de uma visão bíblica, bem-equilibrada, às duas famílias, a original e a mais recentemente formada:

1. De um lado, esposo e esposa: deixam pai e mãe e constituem um novo lar.

2. Do outro lado, a família de onde procedem: os laços não são desfeitos; permanece uma responsabilidade de aconselhar os filhos e de, sempre que possível, encaminhar, nutrir e direcionar os netos.

Em segundo lugar, podemos ir à Palavra de Deus e sempre lembrar que os netos são uma bênção indescritível. Provérbios 17.6 compara-os com uma coroa que os idosos recebem: “Coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são os pais”. Salmos 128.5-6 nos ensina que ter a possibilidade de viver para ver os netos é uma evidência da benevolência divina e da paz que dele procede (“O SENHOR te abençoe desde Sião, para que vejas a prosperidade de Jerusalém durante os dias de tua vida, vejas os filhos de teus filhos. Paz sobre Israel”!). Como consequência da fidelidade de uma geração para a outra, o amor do Senhor e a sua justiça são bênção que advém aos filhos e netos daqueles que temem a Deus (Salmos 103.17: “Mas a misericórdia do SENHOR é de eternidade a eternidade, sobre os que o temem, e a sua justiça, sobre os filhos dos filhos”).

Muitos avós, alguns já idosos, pensam que a responsabilidade de encaminhar e ensinar ficou para trás. Temos até um pensamento popular, que é infelizmente abraçado até por alguns que pertencem ao povo de Deus: “O pai educa; o avô estraga”! Entretanto, em terceiro lugar, a Bíblia nos mostra como essa é uma ideia errada. Deuteronômio 4.9 aponta para a necessidade de preservarmos a nossa fé e testemunho na idade avançada, relembrando os atos e feitos de Deus, transmitindo os ensinamentos da Palavra aos netos (“Tão somente guarda-te a ti mesmo e guarda bem a tua alma, que te não esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e se não apartem do teu coração todos os dias da tua vida, e as farás saber a teus filhos e aos filhos de teus filhos”).

Os avós que se conscientizarem desse papel, de direcionar os netos, também suplicarão a Deus que os sustente e os possibilite, mesmo sendo “idosos e de cabelos brancos” (cãs), a se dedicar à tarefa do ensino das coisas de Deus (Salmos 71.18: “Não me desampares, pois, ó Deus, até à minha velhice e às cãs; até que eu tenha declarado à presente geração a tua força e às vindouras o teu poder”).

Existe também exemplo de como o empenho de uma avó, agindo em conjunto com a mãe, resultou na instrução nos caminhos de Deus de um jovem que foi fundamental no estabelecimento da igreja neotestamentária. Refiro-me ao pastor da igreja de Éfeso e discípulo de Paulo. Em 2 Timóteo 1.5, Paulo escreve que Timóteo segue na tradição de fé recebida da avó e da mãe (“... pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti”). Mais à frente, nessa mesma carta (3.14-15), vemos que essa fé não é somente uma tradição, mas é fruto do ensino que recebeu na infância (“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus”).

Por vezes, há uma tendência natural dos idosos de relaxarem na aparência, no vestir, na fé, na previsibilidade, no bom senso e até na moral. Isso é prejudicial tanto à saúde espiritual deles como ao bom testemunho e postura de sobriedade e sabedoria que se espera deles, e que deveria se fazer presente, pela idade. Nesse sentido, são sábias as palavras de Paulo na carta ao jovem pastor Tito (2.2), onde ele escreve: “Quanto aos homens idosos, que sejam temperantes, respeitáveis, sensatos, sadios na fé, no amor e na constância”. Os cabelos brancos são sinal de sabedoria e experiência, desde que presentes em uma pessoa que trilha os caminhos de Deus (Provérbios 16.31: “Coroa de honra são as cãs, quando se acham no caminho da justiça”).

Às mulheres idosas, Paulo diz a Tito (2.4) para admoestá-las a agirem como fortalecedoras das famílias, “a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amarem ao marido e a seus filhos”. Veja que os netos estão aqui mencionados como alvo e objeto de amor maternal. De forma muito realista, o texto reconhece que é possível que dentro de uma família a esposa se afaste do ideal e não ame nem o esposo nem o filho, mas, ao mesmo tempo, nos ensina que amor se aprende e pode ser ensinado, exatamente pelas mulheres mais velhas, tementes a Deus. Reconhecemos que vivemos em uma sociedade em que a estrutura familiar normal está desfigurada. Não é raro vermos a figura paterna ausente e a mãe abandonada com filhos trabalhando fora, enquanto os cuidados dos filhos ficam com os avós. Nesses casos, papéis que seriam normalmente segregados à mãe (ou até ao pai) têm de ser assumidos pela avó ou pelo avô. Isso significa não somente o cuidado com a educação e com o encaminhamento nos princípios divinos, mas também o dever de disciplinar.

Na parte prática, ser avô ou avó é um grande aprendizado. Aqui estão algumas coisas que aprendi:

1. Negociar com o meu filho, ou filha, qual a extensão da disciplina que eu aplicaria, sem tentar usurpar o papel dos pais. Nesse sentido, chegamos à concordância de que se meus filhos estivessem presentes, eu chamaria a atenção dos netos, mas referiria a situação de conflito ou desobediência à disciplina materna ou paterna, em vez de agir precipitadamente e aplicar o corretivo devido intempestivamente.

2. As demandas físicas, brincadeiras, correrias, atividades extensas, por mais saudáveis que sejam, ultrapassam os limites toleráveis colocados em nossa vida de avós pela idade. Por outro lado, temos mais paciência de realizar atividades mais tranquilas, como ouvir, ler, explicar, contar histórias, do que é possível na vida agitada dos pais. E os netos apreciam, igualmente, esses momentos de paz e reflexão e atenção individualizada. Essas ocasiões são também preciosas para o ensino de princípios e valores eternos, emanados da Palavra de Deus, bem como para ensiná-los a ver a beleza e a utilidade colocada por Deus no mundo que nos cerca.

3. Ser cuidadoso em várias situações, tais como na dádiva de presentes. Sempre deve existir uma linha de comunicação muito aberta com os filhos. Pode ser que eles tenham uma política especial de presentear, destinada a fazer com que os filhos apreciem verdadeiramente as coisas que recebem, e isso pode ser estragado com uma superabundância de presentes. O melhor é sempre conversar com os pais, em vez de inundar a criança com coisas que podem não contribuir com o seu desenvolvimento, ou fazê-la depreciar as coisas simples da vida, desejando sempre coisas mais sofisticadas. Precisamos trabalhar com os nossos filhos, os pais, para criar mordomos do que recebem, das pessoas e de Deus, em vez de materialistas que só pensam no maior e no melhor, ou em ter a posse das últimas novidades nesta vida.

Quando os avós compreenderem bem a diferenciação de papéis e as suas obrigações perante Deus, eles irão se esforçar para apoiar os pais na difícil tarefa de educar e contribuir com o encaminhamento da criança, com amor e interesse real em seu desenvolvimento.

#Netos

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