Amizade



Ao pensar sobre a relação entre pais e filhos, uma relevante questão que pode ser levantada é se é possível existir amizade entre eles. Todos os pais sonham em ser amigos dos seus filhos para sempre, e eu creio que isso seja possível, contudo dois pontos devem ser considerados.

O primeiro é que, quando afirmamos que somos amigos, a definição de amizade vai além da descrita no dicionário: “Afeição recíproca entre dois entes”. Quando eu digo para alguém que ele é meu amigo, espero que ele tenha uma noção acerca da vida que seja parecida com a minha, que suas ideias sejam equivalentes à maturidade que tenho. Entendo que podemos conversar, confidenciar e reagir à vida de igual para igual. Ou seja, ao falarmos que pais e filhos são amigos, queremos dizer que eles têm maturidade semelhante, que podem trocar ideias e confidências, e isso penso ser impossível. Nesse sentido, eles não são amigos e não devem ser amigos nunca. Afinal, crianças e adultos estão em mundos diferentes, exercendo papéis de vida diferentes, e uma das coisas que mais refletem isso é o fato de crianças possuírem noções do que é certo e errado de forma diferente de um adulto.

O segundo ponto que quero destacar é que se deve considerar com certa precisão e profundidade o que é uma verdadeira amizade. Eu sei que eu disse que considero amizade o fato de ser de igual para igual, mas se eu estender minha definição do que é uma “amizade”, posso incorporar bases para que ela possa acontecer entre pessoas de níveis diferentes. Dessa perspectiva, então posso dizer que podemos ter amizade com nossos filhos de diferentes formas em diferentes épocas de sua vida.

Penso que uma criança não está pronta para escutar confidências de um adulto porque, quando isso acontece, este passa a ideia para a criança de que ela é parceira na decisão, o que na realidade não é verdade. Colocando isso em perspectiva, podemos dizer para uma criança que “não temos dinheiro suficiente para comprar certo brinquedo”, o que clarifica um limite do que é acessível ou não. Não obstante, creio que não podemos dizer para uma criança frases como “não sei como podemos pagar o aluguel deste mês” ou “sua mãe é louca e eu não sei o que fazer com ela”, pois ela não tem maturidade para ouvir esse tipo de comentário, e se o fizermos estaremos levando-a a desenvolver uma visão não saudável e não realística do mundo.

É curioso que, ao falar sobre amizade, a Bíblia menciona que existem amigos que são mais próximos do que os próprios irmãos de sangue, porém ela não menciona isso em relação a pais e filhos. Eu creio que é porque nada pode superar o relacionamento de pais e filhos, pois este é um relacionamento forjado a partir do ventre, um relacionamento único. Não se pode esquecer que a amizade entre pais e filhos pode acontecer, mas lembrando que a interação entre as partes irá ocorrer com capacidade e profundidade diferenciada ao longo do tempo.

Gostaria de terminar este artigo usando minha experiência. Tenho três filhos, com idades próximas (3, 5 e 7 anos). Hoje eu não me defino como amigo deles, e sim como pai. Meu sonho é sermos amigos para sempre, mas eles não estão prontos para essa relação. Já com meus pais, eu creio que somos amigos, mas, sendo sincero, apesar de toda a amizade e de toda a liberdade, eu sempre tenho em minha mente que um dos dez mandamentos diz que devo honrá-los.

Assim, concluo propondo uma nova visão: a amizade não é o alvo do relacionamento entre pais e filhos, mas parte de algo muito maior, único, poderoso, amoroso e real. Ela é apenas uma face desse todo. De maneira semelhante à nossa relação com Deus, curiosamente a Bíblia menciona algumas vezes que somos amigos de Deus, porém afirma dezenas de vezes que somos seus filhos. A razão parece-me simples: nossa amizade com Deus é parte de algo muito maior, que é a nossa adoção na família dele, e nela temos um relacionamento de Pai e filho.

#Paisefilhos

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