Resgatando a comunicação



Na narrativa da criação, Deus demonstra que não era bom que a humanidade fosse composta só por um ser e por seres masculinos (Gênesis 2.18). Fico imaginando que Adão, depois de dar nome a todos os animais, observava a sua convivência em pares, os traços de comunicação que havia entre eles, e olhando à sua volta não tinha com quem conviver, se relacionar, se comunicar. A solidão, então, foi o primeiro sentimento negativo que vemos nas Escrituras.

Isso nos ensina que Deus criou o ser humano como ser relacional, comunicativo, e a convivência se torna um componente matricial da constituição da raça humana. Em Gênesis 2.18, infelizmente nem sempre bem traduzido do hebraico, vemos que a mulher foi formada para trazer o que faltava para que a humanidade fosse completa (no hebraico “ezer”, socorro, completar o que falta. Não é uma palavra com significação hierárquica, tanto que é utilizada para descrever Deus como nosso socorro – Salmos 46.1), e ela foi colocada diante do homem (no hebraico “kenegdo”, diante de) para que, entre os dois, houvesse diálogo interativo, colegiado, entre iguais (conforme Gênesis 1.26-28: no hebraico “adam”, ser humano – geralmente traduzido por “homem”, mas “zakar”, macho, “nequebah”, fêmea). Aos dois foi dada a primeira tarefa, a primeira ação, dominar a natureza criada (Gênesis 1.26 – “radah”, governar, ter domínio). Para esse trabalho de gestão da criação, eles precisariam dialogar, combinar expectativas, tomar conhecimento sobre os planos do Criador. Então a ação exigia comunicação plena num ambiente de decisões colegiadas, colaborativas.

Depois da queda, inicia-se o processo de rebeldia do ser humano contra Deus e seu plano criativo. Consequentemente, surgem situações de desagregação entre o ser humano e Deus, mas também entre macho e fêmea. Se antes o ambiente de comunicação e ação era colegiado, pacífico, agora se torna ambiente de tensão, de comando, de poder, pois os dois deveriam dominar e governar juntos, mas o macho irá dominar a fêmea (Gênesis 3.16). A liderança colegiada e colaborativa dá lugar à liderança hierárquica, em que a ação é determinada, em vez de ser fruto de comunicação e aprendizagem.

Isso vai refletir na vida humana, e a história mundial demonstra a desvalorização, por exemplo, da mulher. Santo Agostinho descreve a mulher como escrava do homem, e Napoleão também. Para Tomás de Aquino, a mulher foi considerada um ser medíocre e defeituoso. Mas não somente isso, a comunicação humana vai se tornando cada vez mais complexa e tensa, gerando diversos conflitos pessoais e também entre povos, nações, a ponto de muitas pessoas terem sua vida destruída por guerras. A ação humana vai se tornando destrutiva, egoísta, e hoje mais ainda, a era da hipermodernidade, em que o narcisismo é um imperativo de vida e o que vale é o que cada pessoa sente e pensa, de modo que suas decisões e ações são validadas pela vontade pessoal e não precisam ser justificadas, pois para as paixões e para o coração não há explicação.

Os resultados de tudo isso se tornam visíveis: o aumento progressivo da violência e da promiscuidade, confusões no campo da ética, a aceitação da identidade de gênero, defesa da homossexualidade, divórcios, casamentos por contrato, legitimação da união estável, etc.

Ação e comunicação necessitam ser resgatadas pelo evangelho para que cumpram seu papel estabelecido na criação divina.

#Comunicaçãoação

  • Twitter Clean
  • w-facebook
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now