Nem tudo é como queremos



A Tristeza era bela, mas em seus olhos havia a sombra de quem já desistiu de esperar a alegria. A Alegria também era linda, seu sorriso contagiante e as lágrimas eram estranhas em seus olhos.

Certo dia seus caminhos se cruzaram:

– Nós nunca podemos estar juntas e unidas – disse a Tristeza, chateada.

– Não, nunca – e surpreendentemente a Alegria ficou com seu rosto, sempre radiante, bem sério e preocupado.

– O meu caminho atravessa campos ensolarados, as roseiras florescem quando eu passo e os pássaros cantam felizes – contou a Alegria.

– O meu caminho – disse a Tristeza se afastando bem devagar – atravessa a mata sombria e minhas mãos só colhem flores noturnas. Adeus, Alegria.

Quando ela acabou de falar, ambas perceberam a presença de alguém próxima a elas. Uma atmosfera de realeza, reverência e santidade tomou conta do lugar e fez com que elas se ajoelhassem perante ele.

– Eu o vejo como Rei da Alegria – murmurou a Tristeza –, pois sobre a sua cabeça estão muitas coroas, e as marcas das suas mãos e pés são sinais de uma grande vitória. Diante dele toda a minha tristeza está se transformando em amor e alegria e eu me dou a ele para sempre.

– Não, Tristeza – sussurrou a Alegria –, eu o vejo como o Rei da dor, sua coroa é de espinhos, e as marcas de suas mãos e pés são marcas de uma grande agonia. Eu também me dou a ele para sempre, pois a tristeza com ele deve ser muito mais doce do que qualquer alegria que conheço.

“Então nele somos só uma” – exclamaram – “pois somente ele pode unir a Alegria e a Tristeza” (baseado em texto do livro Mananciais no deserto, de Lettie Cowman, Editora Betânia, 3. ed., p. 223). Cada vez que um casal se casa, acontece uma união de duas personalidades, dois temperamentos, duas culturas, duas famílias, duas formas diferentes de ver a vida, dois tipos de gostos diferentes, etc. Algumas vezes, todas essas características se chocam e em muitos casos o marido e/ou a esposa se decepcionam. O que acontece é que, por motivações falsas e fontes enganosas, são construídas expectativas altas demais sobre o cônjuge e quando, no decorrer da relação, elas não são alcançadas, rapidamente irrompem decepções e frustrações entre ambos.

Essas expectativas são diversas, desde o desempenho sexual até a disciplina dos filhos. São pressuposições antecipadas e imaginadas pelo homem e/ou pela mulher e não verbalizadas.

Eu gostaria de encorajar os casais a conversarem sobre essas expectativas e trazê-las ao nível da realidade, analisando-as, assim como a possibilidade ou não de elas serem realizadas.

Quando essas expectativas não são comunicadas, mas acalentadas no coração de um dos dois, um alerta de perigo é acionado no casamento, isso porque a aceitação do cônjuge passa a basear-se no desempenho. Perigosamente, o desempenho torna-se a linha tênue que mal sustenta a relação, mas esse padrão é insuficiente para dar continuidade a um relacionamento sólido, saudável e prazeroso, como todo casal deseja.

A experiência de doar-se não deve basear-se no fato de o cônjuge merecer ou não. Se fosse assim, os casais só seriam afetuosos um com o outro caso o parceiro fizesse por merecer essa afeição e conseguisse agradar totalmente o(a) parceiro(a).

Durante o namoro, noivado, lua de mel, o clima é favorável porque o romantismo está à flor da pele. Porém, quando o casal volta à rotina e à correria do dia a dia com suas tensões, há uma diminuição considerável do tempo dedicado ao romantismo. E é exatamente nesse momento que o casal passa a focalizar sua atenção nos pontos fracos de cada um.

Quero contar algo curioso que descobri por meio dos meus seminários sobre a família. Quando peço aos casais que façam uma lista dos pontos positivos e negativos de seu cônjuge, é impressionante notar como é fácil para eles destacar mais os pontos negativos do que os positivos. Por que isso acontece? Porque cada um possui sua própria lista pessoal de expectativas que, quando não cumpridas, provocam decepção e desilusão, e isso pode levar um casal a um afastamento relacional. Vou citar três razões por que as expectativas não atingidas causam desapontamento:

1. Desconhecimento das expectativas do cônjuge; 2. Falta de condições de atingi-las; 3. Falta de vontade de realizá-las.

A convivência entre casais seria bem mais tranquila e harmoniosa se eles entendessem que nem sempre um agradará ao outro em tudo. Jamais um cônjuge conseguirá suprir todas as expectativas e necessidades do outro nem poderá agradá-lo totalmente.

Duas pessoas casadas são muito mais do que a soma de duas pessoas distintas. Cada uma, apesar de ser completa em si, como já disse, leva ao casamento características que, se aceitas e compreendidas, enriquecem uma à outra. Quando um permite que o outro seja como realmente é, a interação entre ambos torna-se quase completa. No entanto, se há expectativas irreais e sufocação de uma ou de ambas as partes, sem comunicação, aceitação e apoio, o casamento nunca chega a ser o que potencialmente poderia se tornar, e muitas vezes até fracassa.

Os casais deveriam encarar a vida conjugal sob o objetivo de ter os interesses, anseios, expectativas, sonhos, derrotas, tristezas, alegrias, vitória de um como vitória do outro. Não estou dizendo que no casamento a individualidade precisa ser esquecida, a personalidade asfixiada e o temperamento destruído. Estou dizendo que os cônjuges devem ser sinceros entre si e se esforçarem para se completarem, aproveitando e priorizando sempre o melhor que cada um pode oferecer.

As expectativas da Tristeza e da Alegria eram opostas. Em certo momento de seu caminho, ambas acharam que era impossível estar juntas, conseguirem se unir. Somente a presença santa do Senhor Jesus ao seu lado pôde fazê-las compreender que ele é capaz de nos ajudar a valorizar mais a pessoa que amamos do que as expectativas que esperamos que elas atinjam.

“Nele somos só uma”, elas concluíram. Apesar de ter caminhos com expectativas distintas, em Jesus elas encontraram a união e o consenso.

Somos seres dinâmicos. Se aplicarmos os conceitos de “um ao outro” em nossos casamentos, será possível desenvolvermos cada dia os princípios de relacionamento ensinados por Jesus Cristo: “amai uns aos outros”; “honrai uns aos outros”; “perdoai uns aos outros”; “considerai uns aos outros superiores a si mesmo”, etc.

Enfim, quando um tentar alegrar e satisfazer o outro, torná-lo feliz e realizado no casamento, apesar de este não preencher todas as suas expectativas, o amor torna-se mais concreto, evidente e estimulado.

Que a insubstituível presença de Jesus seja sempre bem recebida em sua vida conjugal e que Ele ajude você e seu cônjuge em seu mútuo caminhar.

#Divórcio #Separação

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