Filhos precisam de amor incondicional



Das lições que o evangelho traz e sobre o que a teologia soube construir, um argumento coerente e consistente é a graça. Todos nós temos uma boa definição para ela: “favor imerecido”, “aquilo que Deus dá sem merecermos”, “expressão do amor de Deus”, etc.

Se temos boas definições da graça, penso que não temos exemplos fáceis de lembrar. E isso por um motivo simples: expressar a graça não é tarefa fácil. Dar a alguém o que ele não merece ou além – dar o oposto daquilo que a razão diz para fazer – não é nada fácil e, não raro, não fomos treinados para isso.

Há uns anos fui convidado para debater homossexualismo num programa do SBT. A certa altura da discussão, o oponente, gay famoso no Brasil, fez uma colocação súbita pensando que iria me deixar mudo: “Eu queria ver o que você iria fazer se tivesse um filho gay”. Eu respondi que, pelo exemplo que ele recebe em casa e na igreja, dificilmente se tornaria gay, baseado no comportamento aprendido (entendo que essa não seja a única causa da questão). Mas “se” isso acontecesse, eu deveria amá-lo, ainda que não aprovasse a sua escolha ou inclinação.

Mas o leitor não se iluda, pois isso é o quadro idealizado, isso é aquilo que “sabemos ser o certo” a fazer, dadas as condições hipotéticas. Em outras palavras, sabemos o certo, mas será que o fazemos? Paulo já advertiu: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo” (Romanos 7.18-19 – NVI).

A educação dos filhos passa por estes dilemas: primeiro o da graça (o aspecto ideal da questão), depois o da realidade, do cotidiano. O ideal e o real nem sempre se combinam. Como equilibrar esses dois polos? Como ajustar o certo à sua prática? Permita-me mencionar o que minha esposa e eu experimentamos em nossa família, pois tem funcionado bem conosco. A nossa experiência não é modelo para ninguém, porque há inúmeros fatores interferindo de caso a caso, de modo que não existe uma forma dentro da qual nos lançamos de um lado e saímos “aperfeiçoados” do outro.

Quando Roseli engravidou, começamos a imaginar situações as mais variadas nas quais poderíamos ser envolvidos enquanto “pais”. Uma vez criado o quadro imaginário, propúnhamos soluções e atitudes para resolvê-las com o menor trauma possível. O nosso filho nasceu e logo precisamos começar a recorrer àquele repertório que preparamos de antemão. Era um repertório “ideal”, aquilo que sabíamos ser o certo a fazer quando o problema ainda não estava presente, quando o “sangue ainda estava frio” o suficiente para pensarmos com equilíbrio e com a razão, não com a emoção à flor da pele. Hoje, nosso filho tem dez anos de idade e, olhando para trás, podemos contabilizar boas histórias de amor com ele. Aliás, quando ele fica acordado até a meia-noite, disputa com a mãe para ver quem diz primeiro “amo mais!” no novo dia – uma saudável competição entre eles.

Mas e a parte prática da questão? Se o ideal foi pensado com antecedência, o real deverá segui-lo o mais próximo possível. É aí que entra a determinação, o esforço pessoal por fazer o que é certo, o que sabemos ser o certo. E fazer o certo às vezes não é fazer o conveniente, o politicamente correto ou o que exigirá menos esforço.

Transmitir aos filhos uma educação cristã, dar a eles os exemplos que julgamos ideais, educá-los pelos princípios cristãos de uma família amorosa, que cultiva um ambiente terapêutico, amigo, restaurador – um porto seguro – exige que sejamos prevenientes e eficientes. Prevenientes no planejamento e eficientes na sua execução. Minha esposa e eu tivemos tempo para planejar e precisamos de pulso para implementar o que foi elaborado. Muitos casais e famílias não conseguem planejar. E aí, como fica a questão? Precisarão recorrer à correção, que dá mais trabalho, mas não poderão escapar dela se quiserem contar uma boa história no final de suas vidas. E isso funciona para toda a nossa atividade. Tudo aquilo que não fazemos organizadamente desde o início precisará ser corrigido, reorientado e reformulado depois. Do contrário, jogue a toalha.

Se a relação entre pais e filhos não vai bem, pare, identifique os pontos de tensão e planeje os próximos passos de comum acordo entre todos. Mas lembre-se: não são somente os nossos filhos que poderão contar com o nosso amor gracioso; vocês também contarão com a abundante graça de Deus nas tarefas diárias de sua família, ainda que seja naquelas mais árduas e nas experiências mais dolorosas.

#Paternidade #Filhos #Amor

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