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Deus Pai, modelo de paternidade



Fui convidado para fazer uma palestra para jovens abordando o tema Atributos de Deus e decidi começá-la sugerindo uma dinâmica motivacional. Pedi a cada participante para colocar em uma folha de papel, por meio de um desenho, diagrama ou escrito, seu conceito sobre Deus. O resultado da dinâmica foi surpreendente; muitas experiências foram sublinhadas. No entanto, o que mais me chamou a atenção foram as experiências negativas sobre Deus: um Deus distante, vingativo, inexplicável, fiscalizador, ditador, etc. Nessa estimulação, algumas pessoas apontaram um conceito de Deus acolhedor, protetor, amoroso e misericordioso.

Com certeza, as pessoas que manifestaram suas experiências registrando um Deus Pai cobrador, autoritário, etc. ilustraram bem seu conceito sobre relacionamento paterno – nesse caso, construindo barreiras físicas, emocionais, relacionais e espirituais.

Sou fruto de uma geração em que o pai era considerado o provedor e – sempre – tinha a última palavra nas decisões a serem tomadas. A ponte para chegar ao pai para algum pedido era a mãe, como, por exemplo, conseguir algum favor, um passeio, um brinquedo, uma roupa.

Na trajetória do relacionamento com meu pai, tive duas experiências marcantes. A primeira, de um pai preocupado com a educação dos filhos, mas com dificuldades para o diálogo e, às vezes, violento no trato com os filhos. A segunda, transformadora, ocorreu após uma doença que o atingiu e quase o levou à morte: a malária. Durante o tratamento, pude me aproximar de meu pai, que requeria cuidados mínimos: tomar banho, ir ao banheiro, fazer a barba, alimentar-se, etc. Nesse novo relacionamento, aconteceu uma verdadeira conversão: anteriormente, um pai distante, intolerante; agora, com a experiência da reaproximação, um pai amoroso, acolhedor, dependente e cheio da virtude do evangelho de Jesus Cristo. Aprendi uma grande lição: crescemos quando somos frágeis. À luz do ensino paulino: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo” (2 Coríntios 12.9).

Acredito que esse testemunho poderá nos ajudar no entendimento e na compreensão da pessoa de Deus Pai. Primeiramente, uma análise da Escritura poderá nos conduzir ao conceito de um pai em uma estrutura social patriarcal e poligâmica, que não serve como parâmetro para orientar nosso tempo. No entanto, somos instados a uma releitura da Palavra de Deus tendo como fundamento sua graça restauradora para perdoar, reconciliar, respeitar, incluir e amar.

Com essa leitura, recuperaremos o conceito de um Deus Pai tendo como exemplos a vida e o ministério de Jesus Cristo. Os textos do evangelho revelam claramente um relacionamento filial entre Jesus e o Pai (Mateus 11.27; Marcos 14.36; João 1.14, 3.35, 5.19, 36, 6.39, 57, 10.24; Romanos 8.15; Gálatas 4.6). De fato, encarnou as verdadeiras características de um Deus Pai: criador, sustentador, educador, perdoador, acolhedor, cuidador e cheio de afeição e de afetividade. Do mesmo modo, em sua essência, tem as virtudes maternais que podem ser extraídas do simbolismo destes textos: Isaías 43.1-7, 46.3-4, 66.7-14; Oseias 11.1-11.

Nessa visão, não poderíamos deixar escapar três importantes lições bíblicas:

  1. A extraordinária oração ensinada por Jesus aos seus discípulos (Mateus 6.9-15; Lucas 11.2-4). Aqui, Jesus abre as portas relacionais sobre o conceito de Deus Pai: um pai que cuida, acolhe, individual e coletivamente, mas é Pai que inclui com afetividade todas as pessoas;

  2. Ainda no contexto da oração do Pai-Nosso, essa lição traz-nos o cuidado de Jesus: “E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por um peixe uma serpente? Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lucas 11.11-13). São lições extraordinárias de Jesus apresentando o coração amoroso de Deus, que oferece dádivas aos seus filhos e filhas. As portas do Pai estão abertas;

  3. A conhecida parábola do filho pródigo (Lucas 15.11-32). Nela estão as virtudes de um pai que não abandona o filho desviado e o acolhe, perdoa-lhe, reintegra-o na vivência familiar e oferece-lhe dignidade por meio de atos concretos: “Porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se” (Lucas 15.24).

Considerando-se os apontamentos pastorais sobre o tema, temos:

  • Vivemos em um mundo de rápidas e profundas transformações. A chamada pós-modernidade tem provocado uma vida marcada por individualismo, competição e consumismo. A família, bem como todos os demais agrupamentos sociais, tem sido afetada;

  • No presente cenário da pós-modernidade, a família sofre grandes transformações na composição e na organização por conta de separações, maternidade solitária, agregação de componentes, etc. Os lugares e os papéis das pessoas mudaram. Nessa configuração, a família tem sido geradora de abandono, de falta de presença física de autoridade amorosa, de disciplina, de preparo para a vida. O que vemos são relações egoístas, em que há cobrança excessiva de obrigação dos outros sem dar nada em troca. Falta compreensão; falta temor a Deus. O maior desafio para uma partenidade/maternidade é a manutenção dos valores permanentes do evangelho;

  • A violência familiar tem sido um ponto da crise de autoridade. Lamentavelmente, a crise da paternidade instala-se em diversos relacionamentos;

  • Resgatar no ensino bíblico a importância da paternidade responsável constitui um grande desafio para a totalidade da vivência familiar. O fundamento da graça de Deus Pai é o caminho para compreender e viver a graça restauradora do evangelho de Jesus Cristo em termos de perdão, reconciliação, diálogo, respeito, inclusão e amor. Portanto, o amor é o afeto em ação. Sem amor não há paternidade, pois Deus é a fonte de vida e comunhão (Salmos 68.5-6).

#Deus #Paternidade #Exemplo

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