Valorizando as diferenças



Se todos fossem iguais, criados em série, idênticos como robôs, ninguém precisaria de alguém ao seu lado. Não é possível escapar da realidade de que, por mais afinidades que um casal tenha entre si, sempre haverá algum fator, talvez mínimo, agente causador de irritabilidade, divergência e contrariedade. A convivência dos casais seria bem mais tranquila e harmoniosa se estes entendessem que um não conseguirá agradar ao outro durante todo o tempo. Jamais o homem e a mulher conseguirão fazer absolutamente tudo para preencher as expectativas do seu cônjuge.

Somos criaturas estranhas e complexas. Escolhemos um príncipe encantado ou uma princesa maravilhosa e, logo em seguida, iniciamos um projeto para transformá-lo(a) conforme julgamos ser mais adequado à nossa vontade e temperamento. Mas o problema é que nosso(a) eleito(a) na maioria das vezes não concorda com o nosso plano. Muitas pessoas casadas ficam apavoradas com as diferenças que existem entre si. No entanto, o colorido de um relacionamento pode ser exatamente atribuído às diferenças individuais entre os cônjuges.

Basicamente, o primeiro casamento foi a união de duas pessoas semelhantes – “... osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gênesis 2.23) –, mas, ao mesmo tempo, distintas – “... homem e mulher os criou” (Gênesis 1.27). Deus, ao criar a mulher, disse que ela seria alguém para auxiliar e corresponder ao outro ser humano criado, o homem (Gênesis 2.18).

Homens e mulheres são muito diferentes, e essas diferenças influenciam nos sentimentos e comportamentos de cada sexo. Duas pessoas casadas representam mais do que a soma de duas pessoas distintas. Cada um, apesar de ser completo em si (não são duas metades), leva para o casamento características que podem enriquecê-los mutuamente. Quando um permite que o outro seja como realmente é, a interação entre ambos torna-se quase que completa. Porém, se há sufocação de uma ou das duas partes, sem aceitação e apoio, o casamento é praticamente boicotado, não chegando a se tornar o que potencialmente poderia ser.

É claro que nem todas as diferenças são facilmente aceitáveis ou trabalháveis. Há verdadeiramente algumas difíceis de serem ajustadas, mas não impossíveis. O casamento de um extrovertido com uma introvertida; ou um dos cônjuges que quer sempre estar saindo, relacionando-se com pessoas, ao contrário do outro, que é capaz de pagar para ficar em casa lendo ou assistindo televisão, por exemplo. É necessária uma grande dose de tolerância e também que o casal lide positivamente com o conflito. Se ambos não olharem seriamente para este assunto, a tendência será de um forçar o outro a ficar parecido consigo mesmo, perdendo assim a oportunidade de apreciar e crescer com seu cônjuge, como ele realmente é.

Enxergar, entender e aceitar as diferenças pode vir a ser uma das grandes alegrias do casamento e uma enorme contribuição para um relacionamento mais profundo, em vez de uma constante causa de atrito.

Como já sabemos, fisicamente homens e mulheres diferem em cada célula de seus corpos. A própria estrutura óssea de ambos é diferente. A mulher possui várias funções orgânicas inexistentes no homem, entre elas a menstruação, a gravidez e a amamentação.

Percebemos no livro de Cantares a atração física que Salomão sentia por sua esposa. Essa atração é mais forte no homem do que na mulher. Uma atitude assertiva da mulher em relação à sua própria sexualidade em geral mantém a atração do marido voltada para si.

A mulher vê o sexo como um envolvimento mais íntimo e pessoal do que o homem. Parte disso pode ser imputada ao fato de o aparelho reprodutivo do homem encontrar-se do lado externo do corpo e o da mulher do lado interno. O cultivo da área sexual também depende de uma compreensão dos enfoques e necessidades de cada um. É o homem que busca com mais frequência ter relações. Mais suscetível a estímulos visuais, o que ele lê, ouve e vê durante o dia desperta o seu desejo sexual. A mulher, por sua vez, fica plenamente feliz em ter um número menor de relações sexuais, e, quando menstruada, seu desejo tende a diminuir ainda mais, pois ela passa por oscilações físicas e emocionais. Num minuto está rindo, logo depois chorando; fica irritada à toa. Mensalmente, a maioria das mulheres se transforma em um verdadeiro carrossel de emoções comandado pela famosa e temida TPM.

Depois de estudar as diferenças que o homem e a mulher têm sexualmente e de ter trabalhado com centenas de casais, estou convencido de que essas diferenças não são totalmente compreendidas. O que o casal deve procurar fazer é buscar o equilíbrio que só emerge através da aceitação incondicional de um pelo outro. Dentro de limites razoáveis, não se deve julgar as intenções e motivações do cônjuge. É assim que o homem, o marido, vai conseguir perceber a fragilidade e sensibilidade da mulher, da esposa, e começará a disciplinar-se no controle de seus impulsos e desejos sexuais. A mulher, a esposa, deve reconhecer que, apesar de nem sempre desejar ter relações, por amor ao marido pode fazê-lo, dando de si mesma a ele.

Deus presenteou o homem e a mulher com o sexo para que ambos desfrutassem das alegrias e do prazer que ele oferece, aproveitando-o e conhecendo-o em todas as suas dimensões. Só traz benefícios ao casal aprender a desenvolver e ajustar sua vida sexual, comprometendo-se a satisfazer um ao outro, sabendo respeitar, aceitar e compreender as diferenças, protegendo-se, desta maneira, de criarem desentendimentos e mágoas entre si. De todas as diferenças (temperamento, personalidade, vida sexual, cultura, herança familiar etc.), a área de comunicação é a mais importante para um casamento saudável, pois é a consequência das outras. Muitos especialistas acreditam que desde a época em que uma criança se encontra no útero materno podem-se notar os fatores que marcam a diferença entre um menino e uma menina, e logo nos primeiros momentos após o nascimento as garotinhas demonstram ter mais movimentos bucais e labiais do que os meninos. Em geral, as meninas começam a falar mais cedo e se expressam melhor do que os meninos. Esses fatores também afetam a forma de comunicação de ambos no decorrer da vida.

Os estudiosos em comunicação também afirmam que, em média, uma mulher tem para falar 25.000 palavras por dia, enquanto a média para os homens raramente supera 10.000 palavras. Levando esta informação para a esfera do casamento, é possível dizer que a maioria dos homens utilize suas 10.000 palavras no trabalho durante o dia, mas ao voltar para casa encontra a esposa, que ainda não chegou à metade das suas.

Nos seminários que ministro por todo o Brasil, tenho perguntado às mulheres quanto tempo seria ideal para conversarem com seus maridos de forma mais profunda e qualitativa. Em média, a resposta que recebo é de um mínimo de 30 minutos por dia. Os maridos, por sua vez, dizem de 20 a 30 minutos duas vezes por semana.

De forma geral, os homens gostam de conversar sobre assuntos mais racionais, fatos, acontecimentos, negócios etc. Já as mulheres costumam dar preferência a assuntos mais emocionais, compartilhando seus sentimentos, tristezas e alegrias. Se essas diferenças não forem compreendidas, a comunicação pode ficar seriamente comprometida. Vale acrescentar que uma área em que os homens precisam de ajuda é quanto a compartilharem suas emoções, sentimentos, sonhos e frustrações com suas esposas.

Se estivermos realmente interessados em valorizar nossos cônjuges, será imprescindível observarmos essas diferenças, particularmente na área de comunicação. É importantíssimo manter uma comunicação aberta e clara. Se isso for feito, mesmo havendo diferenças, incompreensões, desavenças e frustrações, elas podem ser solucionadas com uma boa e honesta conversa.

Mas muitas vezes o marido ou a esposa sabem que precisam mudar em algumas coisas, mas não conseguem ou simplesmente não querem. Nesses casos, é certo querer modificar o cônjuge ou é apenas uma questão de egoísmo pessoal?

Recordo-me, desde quando ainda era pequeno, que um dos motivos que deixavam minha mãe extremamente irritada com meu pai era a maneira barulhenta como ele tomava café. Para uma mulher educada, refinada, esse tipo de comportamento era inconcebível e constrangedor. Ele era um homem simples e rústico, que conseguiu cursar apenas até a 9ª série do fundamental. Entretanto, minha mãe não conseguia entender seu modo de ser, não aceitava essas pequenas diferenças e sempre tentou modificá-lo.

Sobre as tentativas de modificar o cônjuge, gostaria de abordar dois pontos. Existe uma aceitação passiva das diferenças e uma rejeição agressiva delas. O primeiro é um extremo que leva a duas atitudes prejudiciais: Resignação – que é a desistência provocada por um sentimento de impotência. Quando nos resignamos e aceitamos um comportamento indesejável, essa acomodação fere a nossa autoestima. Quando falhamos na tentativa de mudar algo no nosso cônjuge, surge um sentimento de incapacidade que fere nossa autoimagem. Sentimento de autocomiseração – um dos cônjuges se transforma no mártir que aceita o comportamento do(a) companheiro(a) porque acredita ser impossível mudá-lo(a), mas usa esse comportamento para ressaltar como é uma pessoa compreensiva. Tal atitude só contribui para manter feridas abertas e favorece um provável distanciamento emocional e, em alguns casos, até mesmo físico.

O segundo extremo é a rejeição agressiva, que leva a pessoa a incorrer em dois perigos: Vingança – traduzida numa raiva incontida, irritação constante e frustração por não poder modificar o(a) companheiro(a). A vingança é contraproducente porque impossibilita o aprofundamento da intimidade entre o casal e é um impedimento definitivo para as mudanças tão desejadas. Afastamento – vários casais pagam um alto preço emocional quando se decidem pelo afastamento mútuo. Depois de algum tempo, ambos estão inexoravelmente feridos. Como já afirmei, cada pessoa recebe educação, influências, informações, além das próprias características de personalidade e temperamento. Tudo isso resulta no que somos. Algumas características podem ser mudadas, com esforço e oração, principalmente se sabemos que aquele traço incomoda nosso cônjuge. Com outras pode não ocorrer o mesmo. Converse com seu cônjuge sobre alguns aspectos que o incomodam nele. Ouça também a opinião dele sobre as suas. Procurem não se machucar.

O estudo e a observação do cônjuge é uma tarefa que perdurará por toda a vida. Como indivíduos, somos seres dinâmicos. Se aplicarmos os princípios de “um ao outro” em nossos casamentos, será possível desenvolvermos a cada dia os princípios-chave de relacionamento: “amai uns aos outros”; “honrai uns aos outros”; “perdoai uns aos outros”; “considerai uns aos outros superiores a si mesmos” etc.

Um dos segredos de um casamento não é simplesmente encontrar a pessoa certa, mas ser a pessoa certa. Coloque-se perante o Senhor e procure descobrir formas práticas de melhorar essas áreas de conflito. Peça a Deus amor e sabedoria para aceitar e apreciar suas diferenças com seu cônjuge. Desta maneira será muito mais fácil para o amor e o carinho fluírem livremente entre vocês.

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