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Dona Betty



Dizem que há dias em que o melhor a fazer é ficar na cama, deitado, esperando o tempo passar. Meu pai faleceu em 2001. No mesmo dia em que meu marido foi vítima de um sequestro-relâmpago, em São Paulo, minha família telefonou dos Estados Unidos para avisar que meu pai estava morrendo e queria me ver. Foi difícil deixar o Jaime sozinho naquela hora, pois ele estava muito traumatizado, mas concordamos que os meus pais mereciam ter ao seu lado a presença da filha que passara grande parte da vida longe deles. Tudo isso aconteceu logo depois da tragédia das Torres Gêmeas em Nova Iorque, no dia 11 de setembro. Os voos internacionais ainda não estavam regularizados, porém eu consegui uma passagem e cheguei a tempo de me despedir do meu pai meia hora antes de ele falecer. Segurei-o em meus braços e cantei para ele: “Jesus, eu te amo, pois sei que és meu...”. Todos nós achamos que ele estava apenas me esperando para, então, partir. O enterro foi somente para familiares e amigos mais chegados, mas depois fizemos um culto na igreja para celebrar sua vida. Choramos, sim, mas também rimos ao lembrar os momentos felizes que tivemos com ele. Cantamos suas músicas prediletas. Cânticos de vitória!

Sabemos que aquele culto representou um testemunho impactante para os parentes e amigos que não eram cristãos. Apesar da dor que sentia, minha mãe ficou muito contente por eles terem escutado o plano da salvação. Fiquei com ela durante algumas semanas enquanto a equipe do Lar Cristão confortava e apoiava o Jaime em São Paulo e pude verificar pessoalmente a maneira como ela enfrentou a viuvez. Desde então, tenho observado outras pessoas enlutadas e vejo que minha mãe, apesar de sentir muita saudade do seu amado, não passou pelos traumas que às vezes as viúvas passam. Acho que sei por quê.

Em primeiro lugar, minha mãe sempre foi uma pessoa independente. Meu pai a incluía em todas as decisões financeiras, e ela sabia onde estavam todos os documentos importantes, como administrar as contas mensais e até preencher o imposto de renda tão bem quanto ele. Meus pais sempre viveram de modo simples, mas planejaram para o futuro. Eles não fizeram dívidas, tinham plano de saúde e ela ficou com dinheiro suficiente para viver pelo resto de sua vida.

Às vezes, por causa da morte do cônjuge, a pessoa se vê obrigada a mudar de residência. Meus pais já haviam vendido a casa em que viveram por mais de cinquenta anos, onde criaram seus cinco filhos, e mudado para um lugar menor. Essa nova casa tem vista para um lago, e minha mãe gosta muito de ficar na janela apreciando o nascer do sol, as águias e os pescadores. É um verdadeiro show!

Acho um erro as pessoas aposentadas mudarem de sua cidade para outra. Não sei o que minha mãe faria sem as suas amigas de tantos anos. Pelo menos uma vez por semana, ela sai para tomar café com Emmi, que, como minha mãe, também é viúva e tem 90 anos. Elas falam ao telefone constantemente e costumam cuidar uma da outra. É uma amizade que começou há 60 anos! Minha mãe frequenta a mesma igreja desde que se converteu e é muito querida por todos. Ela é oficialmente responsável por abraçar todo mundo. Durante muitos anos cuidou do berçário e criou muitos “filhos e netos”. Todos a chamam de “Vó Betty”.

A família também gosta de ir à sua casa. Ela não é de “fazer cobranças”. Se meu irmão quer trabalhar no jardim, ela fica feliz. Se ele prefere jogar palavras cruzadas com ela ou tocar violão, ela também fica feliz. Minha mãe tem preocupações e passa por dificuldades como ocorre a todas as famílias. Mas ela anda muito perto do Senhor e sabe que está perdoada das falhas do passado. Ela amava demais meu pai, mas nunca o idolatrou. O primeiro lugar no seu coração sempre foi reservado a Deus. Ela tem longas listas de oração e é muito fiel em interceder pelos outros. É seu costume ler a Bíblia de capa a capa todo ano.

Dona Betty está com saudades do céu. Um de seus filhos e seu marido já estão lá. Porém, o mais importante, o seu Salvador está lá! Minha mãe coloca sua esperança nas promessas de Deus: “Tu me farás conhecer a vereda da vida, a alegria plena da tua presença, eterno prazer à tua direita” (Salmo 16.11).

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