Aceitar e perdoar



Acho que de maneira proposital, Deus, em sua infinita sabedoria, trabalhou intensamente na diversidade de sua criação. Encantamo-nos com as mais variadas espécies da flora, fauna e nos esbarramos na dificuldade de aceitar por que somos tão diferentes na forma de pensar e agir. Tudo começa a partir de uma base genética diferente. Quanto a isso, não há lei maior que a do próprio Deus. Assim Ele fez porque assim o quis.

Desde o início dos relacionamentos interpessoais, sabemos quão diferentes as pessoas são e o quanto isso pode prejudicar tais relacionamentos. A Bíblia nos prova em seus tantos relatos que, por conta dessas diferenças, muitas batalhas foram travadas e muito sofrimento ocorreu. Fato é que, mesmo se houvesse a possibilidade de existir apenas você no mundo, ainda assim o conflito estaria presente. Isso ocorre porque o mal veio com a prática do pecado – todos pecamos e fomos destituídos da glória de Deus. Você já disse ou ouviu alguém dizer: “Nem eu estou me suportando”? Pois bem, esse é um processo natural que dá base ao homem para que possa pensar quem ele é, qual sua missão, intenção e, o mais importante, detectar as condições indispensáveis de analisar seu comportamento, tanto para consigo mesmo quanto para com a sociedade.

É evidente que olhar para si mesmo é uma tarefa muito árdua. Isso nos conscientizará, sem nenhuma reserva, de quem somos e o que pretendemos com nossas atitudes. E o julgamento é feito de maneira perfeita, por aquilo que chamamos de consciência. A apreensão que se tem em olhar o outro cria diante de nós uma enorme barreira para não olharmos para nós mesmos. Talvez fossem centenas as pessoas que quiseram apedrejar a mulher apanhada em adultério, citada em João 8. É assim também que agimos quando não olhamos para nós mesmos. Mas Jesus conhece os corações. Ele sabe o quanto erramos, quão grandes são nossas falhas, como é que olhamos para aqueles que erram e quantos de nós estão dispostos a perdoar.

Compreender, conviver e se comunicar com os mais variados tipos de pessoas é uma empreitada engrandecedora, pois acumulamos um rico conhecimento de vida, mas é uma das lições mais difíceis de aprender. Diversidade, tolerância e respeito são palavras de ordem. Por esse motivo, é possível perceber o que Cristo quis nos ensinar. Aceitar e perdoar o outro é mostrar a consideração que temos, sem que estejamos gostando do que se faz, mas considerando o que o outro é. No casamento, isso tem um peso muito grande. O outro é mais importante do que imaginamos e, no entanto, o cônjuge não é tão respeitado como se respeita um chefe de trabalho ou outra celebridade qualquer. A aceitação no casamento vem permeada de atos corretivos, e essas atitudes são incompatíveis. Sabemos quão doloroso é olhar para nossa trajetória de vida e ver nossa história manchada de dores emocionais por conta dessa prática. São longos anos de caminhada tentando acertar, mas podendo andar em círculos e chegar à velhice cansados e frustrados, porque não foi possível ter uma qualidade de vida.

O interessante é que o problema maior está dentro de nós. Quando não nos aceitamos, temos dificuldades de aceitar o outro. Geramos tanta expectativa sobre nós mesmos que, natural e inconscientemente, a transferimos ao outro. Esse é um conflito interno que precisa ser diluído. Aceitar e perdoar a si mesmo, bem como o outro, tem um efeito enorme sobre a dinâmica de uma família. É notável a tranquilidade e a paz que um ambiente oferece quando há aceitação. É acolhedor e seguro. E todos os cuidados, sejam eles maternais, paternais ou conjugais, não são vistos como gestão, porque gestão é para empresa e não para uma família. Se a necessidade é evangelização ou conversão, a aceitação e perdão devem ser tratados com muito zelo. Existe uma linha muito tênue entre amar e aceitar. Nas duas situações, precisamos da graça e misericórdia do Criador. Ninguém pode aceitar se não amar nem amar sem aceitar. Jesus nos amou para nos aceitar e nos aceita porque nos amou.

O tempo que levamos tentando a prática de uma ou outra condição é desgastante. E é por isso que no divórcio muitas pessoas têm encontrado um atalho, que na verdade é um caminho curto que mais cedo ou mais tarde desembocará no mesmo longo caminho de uma vida a dois. A vida social é uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento. É triste quando percebemos, por exemplo, que em anos de casamento crescemos tão pouco. Se buscamos uma vida perfeita, não avançamos ao ponto da maturidade. Mas se interpretamos de maneira simples o que o outro faz, então não teremos um problema, mas sim uma solução.

Estar em um relacionamento supõe uma escolha pessoal. Mas ainda que não tenha sido, não entramos num relacionamento para descartá-lo mais tarde. Pessoas têm valido menos do que coisas. Cuida-se de um objeto eletrônico com o carinho e atenção que deveriam ser dispensados ao parceiro(a). E é então que podemos entender quem somos: pessoas que querem ter o controle. Estar no controle é uma visão errônea de vida a dois. Deus aprecia o compartilhamento de ideias, sentimentos, frustrações, ideais, porque a função de uma vida a dois é o compartilhamento. Compartilhar as alegrias é um dever tão real quanto compartilhar as tristezas, porque por meio dessa prática vemos o reflexo do amor de Deus no homem que o ama e que o serve. O mandamento é este: que amemos uns aos outros como a nós mesmos. Se nos amamos mais do que ao outro, erramos. Se amamos menos, também erramos. Se amamos as coisas e usamos as pessoas, então está tudo errado. Se amamos dirigir o outro pela visão pessoal que temos sobre tudo, então está tudo muito errado.

Família é o empreendimento mais especial da face da terra. Temos ouvido falar que família é a base de uma sociedade, que é projeto de Deus. Então paramos para pensar: o que está acontecendo? É real a falibilidade desse projeto perfeito. É real a doença emocional, às vezes crônica, na nossa família. E se fingimos não enxergar, é como bater o carro num enorme barranco, causando estragos, às vezes fatais. Ninguém que vive em família ou em sociedade tem o direito de reger a vida por um meio unilateral. O que pensamos ou admiramos é aquilo com o que nos identificamos e por isso queremos que assim seja. Dessa maneira, é muito mais fácil a compreensão da nossa parte, mas certamente não é compreendido pelo outro. O que causará incômodo é justamente o fato de não nos abrirmos para o novo. Não nos liberarmos para a ideia do outro, que é totalmente diferente da nossa. Passamos por desentendidos. Desentender significa: 1. Não entender; 2. Fingir que não entende; 3. Não se entenderem reciprocamente (dicionário Michaelis). Quando o outro faz algo diferente do modo como eu faço, ou não faz como eu gostaria que ocorresse, isso parece que viola uma regra interna de como as coisas deveriam ser. Se queremos ter o controle de tudo, então pensamos que existe apenas a perspectiva do ângulo pelo qual olhamos. E isso não é verdade. Não existe o certo ou o errado, apenas o olhar por ângulos diferentes. Se nos colocarmos no lugar do outro, podemos sentir a pressão que exercemos sobre ele. Se nos posicionarmos de modo que possamos enxergar pelo mesmo ângulo, teremos um resultado surpreendente. É lógico que isso dá trabalho e gera estresse para explicar a sua ideia, ouvir a do outro e depois fundi-las num mesmo molde. Mas é assim que deve ser. Por isso relacionamento é tão custoso, porque precisamos investir tempo, vontade, coragem e persistência para manter o brilho da vida.

Uma boa prática é olhar para cima quando ao redor estiver tudo escuro. É preciso catalogar as pedras nas quais tropeçamos incessantemente. É preciso buscar o equilíbrio para raciocinar com clareza e compreender que só nós mesmos colocamos em nossos ombros um fardo pesado, e que o outro pode ajudar a retirar se pedirmos ajuda. Só nós mesmos decidiremos a força gravitacional dos problemas do mundo à nossa volta. Mesmo que nossas ações tenham sido devastadoras no passado, mudando a nós mesmos, tudo se transformará antes que compreendamos como tudo aconteceu. Esse é um trabalho meramente humano. Deus só nos concede as ferramentas, mas nos encoraja a trabalhar. Dividir tais ideias com o outro é trabalhar em equipe, e isso é dividir os louros, os troféus, os resultados. Quando entendemos que o mais importante no caminho não é chegar a um lugar específico, mas sim ser capaz de trilhar esse caminho com alegria, então teremos conseguido crescer e cumprir a missão de estarmos em um relacionamento, seja ele conjugal, profissional, religioso etc.

Deus fez o homem para viver intensamente uma vida de deveres, mas com direitos excepcionais. Ele é o maior interessado em nosso bem-estar. Nós é que criamos barreiras que dificultam um caminhar suave. Lembremo-nos: Jesus levou nosso fardo. Sempre que estivermos cansados e sobrecarregados, podemos ir até Ele, que nos disse: “Vinde a mim”. Se descansarmos no Senhor, poderemos viver de maneira mais leve, aproveitar tudo de bom que há em nos relacionarmos com pessoas, ensinar e aprender, doar e receber, poderemos ser luz para os que ainda estão em trevas. E quando o fim chegar, poderemos descansar em paz, como alguém que cumpriu sua missão.

#Perdão

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