Filho adolescente: dor de cabeça na certa?


Não há como escapar. É o curso natural da vida. Toda criança cresce, e a fase de transição entre a infância e o idade adulta, a chamada adolescência, é um período enriquecedor da existência humana, mas de sentimentos em ebulição, de mudanças físicas surpreendentes e visíveis, de redemoinhos hormonais e emocionais, de oscilações de humor, de descobertas magníficas e reações inesperadas. É um tempo que pode decretar, definitivamente, a maneira de o futuro adulto enxergar a vida, as batalhas que ela deflagra contra o ser humano e que atitude deve assumir diante delas.

A adolescência é a época em que as crianças substituem os pontos de interrogação por pontos de exclamação. Elas questionam a respeito de tudo e não apenas isso: não se cansam de argumentar.

A adolescência indica o início da caminhada rumo à maturidade. Há um frenesi de transformações físicas e emocionais. Depois de conviver e observar jovens adolescentes durante muitos anos, e trazendo à memória minha experiência como pai de três filhas que um dia foram adolescentes, concluí que há quatro perguntas que, invariavelmente, eles fazem sobre sua vida:

Quem sou eu? Essa pergunta revela a luta interior que todo adolescente trava para descobrir sua identidade como ser humano único, peculiar. Às vezes, em sua busca por identidade, eles começam a enfrentar sentimentos como medo, ansiedade, insegurança e, embora não se deem conta disso, querem a proteção de seus pais. De qualquer forma, geralmente eles não gostam de falar sobre seus problemas e suas lutas pessoais. Mas pais atentos e sensíveis conseguem perceber e identificar a necessidade de seus filhos.

Precisamos querer ser bons pais. Dá trabalho? Dá! Todo relacionamento dá trabalho. Ser bom filho também dá! A adolescência costuma ser um tempo difícil para eles, que odeiam estar ganhando corpo de adulto, mas ainda conservam a mente da criança.

Que atitudes devo tomar? Ela diz respeito ao desafio que é para o adolescente assumir responsabilidade como cidadão, filho, irmão, estudante, amigo, cristão, etc. Quem convive com um adolescente já deve ter notado como é problemático para ele assumir atitude positiva diante de certas situações. Quando são contrariados, por exemplo, ou são obrigados a acatar uma ordem de seus pais, desencadeia-se uma tempestade incontrolável e barulhenta. Em geral é assim que eles procuram se posicionar perante “os assuntos da vida”. E este, talvez, seja o principal fator por que os amigos da mesma idade exercem maior influência sobre eles do que os pais, parentes, professores, etc.

Ao mesmo tempo em que desejam ser responsáveis e reclamam por liberdade e autonomia de adultos, eles não têm muita certeza se gostariam de chamar sobre si os duros encargos que isso acarreta. Vejamos: Ter um carro? Claro que sim! – Pagar a gasolina? Não! Vestir-se na moda, de preferência com roupas de grife? Por que não? – Pagar a conta? Não!

Para mim, uma boa maneira de trabalhar com os filhos é por meio do processo de responsabilidades e privilégios. À medida que forem responsáveis, obterão privilégios. E o oposto também deve ser aplicado.

Sei que muitos pais são traídos por seu “coração de manteiga” e tendem a ser indulgentes em relação a privilégios. Mas, a meu ver, esta continua sendo uma forma eficaz de lidar com o adolescente para tentar ajudá-lo a desenvolver responsabilidade.

Que autoridade devo respeitar? Hoje em dia o mundo sofre com uma grave falta de credibilidade. Isso dificulta a decisão do jovem sobre se deve ou não respeitar autoridades. Quero citar as que estão sobre ele: pais, governantes e líderes da igreja.

Não é surpresa para ninguém que o mundo está em crise. Violência, injustiça social, corrupção, fome, falência do ensino, mentiras, fraudes desacreditam quem deveria ter a confiança do povo. Não se engane.

O adolescente também se pergunta: “Que tipo de homens são esses?”. Alguns líderes de igreja também se encaixam nesse quadro desanimador, e novamente o adolescente questiona: “São esses homens que devo respeitar e considerar?”.

E o que dizer sobre os pais? Há muitos lares onde reina o desentendimento, brigas, intolerância, desrespeito, desamor, agressividade, desconsideração e incoerência. Os adolescentes ficam confusos se devem ou não obedecer a pais tão descompensados.

Diante disso, devemos ficar admirados quando jovens questionam ou rejeitam as autoridades? Se fôssemos um pouco mais zelosos em relação ao nosso papel de modelos para nossos filhos em formação, agiríamos com mais responsabilidade e temor.

Qual será minha maneira de viver? O adolescente quer saber que tipo de vida terá. É muito comum ouvir deles a seguinte frase: “Eu entendo a maneira como meus pais agem e vivem, mas não sei se quero isso para mim”. Além disso, ao seu redor existem diversas pessoas com padrões de vida diferentes daqueles adotados em sua casa. Então, que atitude tomar?

Essas quatro perguntas não são as únicas feitas pelos adolescentes, mas são as mais comuns, por isso os pais precisam estar sempre alertas e sensíveis, prontos a respondê-las e ajudar seus filhos a encontrarem as respostas com sua supervisão, antes que eles procurem resolvê-las longe da família. Há quatro homens na Bíblia que ilustram cada uma das lutas pessoais que mencionei:

1. Jefté: Quem sou eu? (Juízes 11.1-11) 2. Absalão: Que atitude devo tomar? (2 Samuel 13; 14; 15.1-12; 18.1-18) 3. Josias: Que autoridade devo respeitar? (2 Crônicas 34.1-7) 4. Daniel: Qual maneira de viver devo adotar? (Daniel 1.8-17)

O adolescente, em sua busca por identidade, responsabilidade, definição a respeito das autoridades e forma de viver, necessita de um lar onde tenha:

Aceitação Incondicional Onde, não importa a atitude que tomar, o comportamento que tiver e as palavras que disser, sempre será aceito como filho querido e não será preciso lutar para que isso aconteça.

Comunicação Franca Em que os pais assumem o compromisso de estar sempre prontos e dispostos a, respeitosa e amigavelmente, ouvir seus filhos e conversar sobre qualquer assunto que eles queiram ou precisem, sem julgá-los antecipadamente ou menosprezá-los.

Honestidade Quando os pais desenvolvem a capacidade de confessar seus erros aos filhos e pedir--lhes perdão, dando-lhes também a oportunidade de fazer o mesmo.

Oportunidade de Crescimento Quando os pais confiam que seu filho é capaz de tomar suas próprias decisões de maneira ponderada e lhe dão oportunidade para isso. Porém, se ele errar, aceitam o fato de que todos somos passíveis de erro e oferecem compreensão, orientação e amizade.

Modelos para Imitar Os pais devem envolver os filhos nesse processo pedindo que estes orem para que Deus lhes dê forças para que sejam modelos a serem imitados.

O apóstolo Paulo destacou a necessidade de discipular, isto é, treinar jovens: “E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros” (2 Timóteo 2.2 ). A maneira mais eficaz e apropriada para executar essa tarefa é por meio de um relacionamento íntimo com os adolescentes, semelhante ao relacionamento que o apóstolo Paulo desenvolveu com seu filho espiritual, Timóteo. É isso o que deve acontecer entre pais e filhos. Para que essa relação se desenvolva com sucesso, é preciso haver uma comunicação sincera e proveitosa, carinhosa, aberta e honesta.

No entanto, existe um grande problema. Milhares de anos atrás, o profeta Jeremias observou, sob a inspiração do Espírito Santo, que o coração humano é desesperadamente corrupto (cf. Jeremias 17.9). E isso fica muito evidente no relacionamento familiar. É como uma doença cruel que extermina a vida de milhões de pessoas, infligindo-lhes sofrimentos incríveis, muitas vezes sem permitir-lhes chance de cura. Se ela tiver liberdade para crescer sem que ninguém a confronte ou desafie, em pouco tempo se manifestará incontrolável, impiedosa e ansiosa por destruir relacionamentos familiares. Geralmente não é fácil diagnosticar essa doença, a não ser que ela já tenha interferido nas relações e azedado a boa vontade e a tolerância mútua das pessoas.

Ao viver em família de forma honesta e autêntica, sem massacrar sentimentos e coesões, corre-se o risco de atrair sofrimento e, talvez, alguma humilhação. Entretanto, se a dor for enfrentada, ela pode se revelar como um dos instrumentos mais eficientes a obrigar-nos à dependência de Deus, fazendo com que procuremos obter n’Ele sabedoria para agir e reagir nos momentos difíceis, já que não sabemos o que fazer. E este é um dos propósitos do Senhor: que por intermédio das dificuldades e conflitos o caráter humano seja moldado; isto não somente no que diz respeito aos filhos, mas também aos pais.

Os adolescentes precisam reconhecer e confrontar, como qualquer outra pessoa, seu problema mais urgente: um coração corrupto. Um relacionamento íntimo com os pais pode ajudá-los a chegar a essa conclusão. E os pais, por sua vez, devem se conscientizar da necessidade de priorizar um andar constante e coerente com Deus, para servirem de modelos a seus filhos com o exemplo de fé demonstrada de modo firme e prático.

Há muita riqueza no íntimo de cada ser humano. Como criaturas de Deus, em nossa criação recebemos a sua imagem e semelhança (Gênesis 1.26). Nossa missão, como seus filhos, é caminhar fielmente para o alvo: a perfeição em Cristo Jesus. Para isso, temos ao nosso lado o Espírito Santo, enviado para nos ajudar, fortalecer, orientar, ensinar, alertar, prevenir, convencer…

Quando Deus nos presenteia com um filho, Ele confia que faremos a nossa parte para que essa pessoa, que foi entretecida com tanto amor e esmero (Salmo 139), possa crescer e transformar--se em um adulto equilibrado, temente a Ele e pronto a perpetuar os ensinamentos divinos na vida dos seus próprios filhos.

Queridos pais, é isso que o Senhor espera que vocês façam. Se dependerem de Deus, Ele os equipará para extrair o melhor daquilo que Ele mesmo plantou no espírito e na alma de seus filhos. “Ele fará com que os corações dos pais se voltem para seus filhos, e os corações dos filhos para seus pais” (Malaquias 4.6).

#Adolescência

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