EDIÇÃO 155 - MARÇO/ABRIL 2017

O amor deve ser vulnerável para ser forte

A fé cristã é rica em paradoxos. Quando pensamos em senhorio, pensamos em uma pessoa que manda e em outra que obedece. Quem se submete ao senhorio de outra pessoa perde sua liberdade.

Carlos Alberto Bezerra

Se não tivesse amor, eu não seria nada

Judith e eu pretendemos ficar juntos “até que a morte nos separe”.  Jamais pensamos em nos separar. Posso dizer, sem pestanejar, que, juntos, encontramos e desfrutamos o amor verdadeiro. Judith é a minha eterna namorada.

Jaime Kemp

Amor verdadeiro significa sentir dor

Acordei de madrugada sentindo uma pontinha de frio. Sem acender a luz, aproveitei para ir ao banheiro e depois fui até o guarda-roupa apanhar uma camisa e voltar a dormir. Assim, já tendo decorado o caminho no escuro e sabendo onde os móveis se encontram, abri a gaveta e um pote de gel para cabelo, deixado por alguém da família onde não deveria, foi lançado diretamente para o meu pé descalço, que levou uma pancada e arrancou um pedacinho da pele.

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Silmar Coelho
 
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Gilson Bifano
 
Amor verdadeiro é dar prioridade em suprir as necessidades do cônjuge

Adriel de Souza Maia
 
Amor verdadeiro é amor que perdoa 

Marisa de Freitas Ferreira
 
Amor, o argumento irresistível

Hernandes Dias Lopes
 

ARTIGOS

Adoração em família

Emilio Fernandes Júnior 

Linguagens do amor  

Luciana Piragine

 

Finanças em família

Paulo de Tarso 

 

Comunicação & ação

Marcos Peres

 

Namoro cristão

Fernando de Paula

 

A família nas mãos de Deus

Marcos Garcia

 

Pais e filhos, amigos para sempre

Valeria Lima

Que dor no osso, que sono! Eu queria dormir novamente, mas a dor lancinante me conduziu à cozinha em busca de gelo, e o sono só seria possível depois. Quem vive em família por vezes sofre pelos erros de seus queridos.


Uma jovem mãe faria uma viagem internacional. Ela se vestiu com o modelo mais elegante de que dispunha e foi com seu bebê para o aeroporto. A poucos instantes do embarque, dirigiu-se ao trocador do banheiro e, ao abrir a fraldinha do menino, recebeu do seu lindo bebezinho um poderoso jato morno de urina no pescoço. Ela conseguiu interromper rapidamente o processo, tapando com uma fralda, mas o filho dela tinha uma enorme potência para urinar e os poucos instantes foram suficientes para comprometer a sua roupa nova, que ficou molhada e, pior de tudo, malcheirosa. Que dor na alma de ter de embarcar com um cheiro nada agradável por causa de seu querido filho.


Nelson era trabalhador, amoroso com a esposa, bom pai e dedicado à igreja. Eles tinham cinco filhos e um casal de melhores amigos. Certo dia, aquele marido soube, pela própria esposa, que ela havia se apaixonado pelo melhor amigo dele. Ela contou que eles haviam se tocado, mas que ela queria manter o seu casamento. Que dor na alma!  Que traição! Nelson passou a sofrer por causa de sua amada esposa.


Eu poderia contar inúmeros casos, mas o fato é que quem vive em família sabe bem o que é sentir dor, pois quanto mais perto estamos daqueles a quem amamos, mais esbarrões, pisões e prejuízos levamos. As traições, ingratidões e chatices são incômodos companheiros de quem vive em um lar, cercado por pessoas que ainda sofrem o efeito do pecado.


Claro, a vida em família compensa tudo isso e é maravilhoso estar próximo de quem escolhemos para casar e dos filhos que nos foram presenteados, a quem vimos crescer e com quem compartilhamos o melhor da vida. Mesmo assim, a dor se apresenta e parece que é mais feroz quando fica sem explicação ou quando achamos que há algo de extraordinário com a presença dela ali. Vamos deixar claro que a própria natureza do amor traz consigo a presença da dor e a convivência sempre trará sofrimento leve ou severo, superficial ou profundo, momentâneo ou constante e duradouro. 


O amor pode ser daquele tipo que se tem pelos amigos fraternos, pode ser daquele que uma mãe tem por um filho ou daquele tipo que os amantes compartilham. Extraindo-se o melhor de cada um deles e adicionando-se perfeição, teremos o amor verdadeiro, descrito como ninguém pelo apóstolo Paulo em sua clássica e imbatível descrição:

O amor nunca desiste.
O amor se preocupa mais com os outros que consigo mesmo.
O amor não quer o que não tem.
O amor não é esnobe,
Não tem a mente soberba,
Não se impõe sobre os outros,
Não age na base do “eu primeiro”,
Não perde as estribeiras,
Não contabiliza os pecados dos outros,
Não festeja quando os outros rastejam,
Tem prazer no desabrochar da verdade,
Tolera qualquer coisa,
Confia sempre em Deus,
Sempre procura o melhor,
Nunca olha para trás,
Mas prossegue até o fim. (1 Coríntios 13.4-7)


Quem não desiste é porque precisa insistir e fazer força para acreditar, é sofrer um pouco. Quem pensa no outro, se nega, se alegra com a felicidade do outro e tolera sem esmorecer é basicamente uma pessoa que sofre. Porém, deixe-me destacar que esse tipo de sofrimento, que é uma pequena morte, também é acompanhado pelo poder da ressurreição, que entra em ação sempre que a cruz é assumida, como diz Paulo: “Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal” (2 Coríntios 4.11). Há uma estreita relação entre morrer, ou lançar-se sobre a cruz ao negar-se, e a vida eterna e divina que brota disso:

… Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. (Mateus 16.24-25)

O ser humano criado como imagem e semelhança do Deus que é amor existe para amar. Não amar a si mesmo, mas amar a outro. Para ser pleno, para ter vida, para ser feliz, o homem e a mulher precisam amar alguém que esteja fora. Seja Deus, seja o cônjuge, os filhos ou quem está próximo. Amar é dar de si, tirar do seu para o outro, um pouco de afeto, de atenção, de conhecimento, de dinheiro, de oração. Dar é amar. Deus amou de tal maneira que deu o seu filho. Quem ama dá de si e para isso precisa negar-se e morrer um pouco, tendo a promessa de que quem perde a vida por causa de Cristo experimenta a sua vida ressurreta brotando no peito.


Para amar mesmo e morrer diariamente é preciso ter acesso à fonte maior, àquele que é a essência do amor, e para isso um relacionamento pessoal com o Criador do Universo, com o Pai celeste e com o Deus Altíssimo é essencial. Quem pretende ser como Deus precisa conviver com Ele. Trancar-se no quarto e orar em secreto, estudar as Escrituras, escrever diários de crescimento espiritual, buscar manter uma conversa constante com o Senhor são recursos indispensáveis para quem vive em família e pretende ser feliz e pleno, mesmo experimentando dores e sofrimento.


Como dar o que não se tem? O amor humano é limitado e para amar com o amor perfeito é preciso acessar o Perfeito, encharcar-se lá, continuar conectado e, daí sim, lançar-se sobre a cruz e amar. A dor virá, o sentimento se apresentará, mas o seu efeito liberará o poder do amor que perdoa, que abençoa, que corrige, que ensina, que tolera, que ajuda e abraça, enquanto ainda suporta a lancinante dor do pecado alheio.


O poder de Deus é liberado quando o amor é praticado e o alvo desse amor é perdoado, redimido e santificado. Quem sofre com um pote de gel no pé geme com a dor, mas perdoa e fica de bem. A mãe que viaja com um odor desagradável se consola ao ver seu filho saudável e sequinho. O marido perplexo pela traição da esposa a perdoa e ainda procura aperfeiçoar-se para protegê-la melhor e ainda ficar mais parecido com Deus. O perdão, em todos os casos, é o antídoto mais eficaz contra a doença que causa dor.


O perdão é mais poderoso do que o pecado, e o resultado do amor é superior à indiferença e ao egoísmo. Quem ama perdoa e quem o faz se purifica. Quem se suja com a poeira da vida se enxagua com as águas do Espírito e experimenta o céu em casa, vive então a sua família debaixo da graça.

Josué Gonçalves

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