A ânsia por igualar-se e parecer relevante: os inimigos (e as ilusões) da vez

H istoriadores respeitados, como Niall Fergusson, já demonstraram que o advento da ciência moderna no Ocidente fez girar a roda da produção em escala. Também podemos dizer que tenha sido a necessidade de maiores ganhos que levou os primeiros inventores e construtores de máquinas, especialmente na Inglaterra, a trabalhar em mecanismos que aumentassem a produção. 

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EDIÇÃO 167 - MARÇO/ABRIL 2019

E girando as máquinas a vapor da Revolução Industrial, não tardou a ser girada a “roda da fortuna”. A avidez de perceber maiores lucros levou os detentores dos recursos a investirem em novos mecanismos e maiores produções, que tornaram ricos os primeiros industriais de todos os tempos. O resto da história tem sido uma corrida pela inovação, o sucesso e a riqueza que a acompanharam.


Cada época experimenta as próprias necessidades e traz as inovações que as atenderão; a reboque, padrões são introduzidos, comportamentos são adotados (ou ditados). Veja o caso da calça jeans. Ela era usada por mineradores e vaqueiros no Velho Oeste americano. Levi Strauss e Jacob Davis patentearam o uso de rebites de cobre para reforçar a costura dos bolsos dos macacões, que rasgavam com frequência devido às exigências do uso. Na Inglaterra, eram fabricados macacões usando brim produzido com algodão cultivado nos Estados Unidos. As fábricas de Levi Strauss ficavam na Califórnia, onde a etiqueta de couro foi introduzida nas peças em 1886 e a inconfundível etiqueta vermelha em 1936. Mas o que fez o jeans americano se tornar mundialmente conhecido e desejado, e não o inglês? A influência do cinema e da publicidade, segundo Fergusson.


Como cristãos, imersos na sociedade brasileira, trocamos, mutuamente, influências com ela, todos os dias, ora recebendo, ora enviando nossas mensagens. Como fruto de uma evolução que começou há poucas décadas, hoje percebemos práticas não convencionais à fé cristã serem tomadas como dogmas, como referenciais tidos como infalíveis, inequívocos, dignos de uma “revelação” ou “visão celestial”, como a que Paulo disse ter recebido do Senhor (Atos 26.19). Em linhas gerais, a Igreja brasileira acompanha os passos da Igreja norte-americana, para o bem e para o mal. Como boa parte das denominações que povoam a cena nacional veio dos Estados Unidos, foi natural receber, em parte acriticamente, o que era produzido por lá. Aos poucos, as demais denominações seguiram os passos umas das outras.


Desde as décadas de 1960-1970, visando maior atenção da sociedade, julgaram ser útil fazer associações e apropriações de elementos da cultura e da ciência e introduzi-los por meio das mensagens. Nos primeiros séculos da nossa era, muitos Pais da Igreja serviram-se da filosofia grega na apresentação de sermões e obras literárias. Na modernidade, a racionalidade, a linguagem e aparatos das ciências foram os queridinhos da vez. No final do século 20, a linguagem e os conceitos da psicologia moderna, bem como as ferramentas motivacionais e os sistemas e modelos de gerenciamento de pessoas e de organizações, foram introduzidos por meio dos sermões, livros e demais “produtos” que o “segmento” exigia.


Com o tempo, o resultado apareceu e nós os vemos. Igrejas geridas como empresas, pessoas movidas por resultados, rebanho sendo tratado como clientes a serem satisfeitos, em vez de aprenderem que precisamos servir ao próximo como gratidão àquele que nos salvou. Naturalmente, esses novos gestores, antes chamados pastores de ovelhas, têm sido contaminados pelos efeitos colaterais naturais desses “pacotes” corporativos, e a contaminação é transmitida para quem está à sua volta (há anos publiquei excelente livro do Dr. Karl Kepler, então professor da Faculdade Batista de São Paulo, chamado Neuroses eclesiásticas [São Paulo, Arte Editorial, 2009, 94 p.], que mostra como pastores transmitem seus problemas e neuroses pessoais ao rebanho por meio das mensagens). Há uma exigência e uma pressão de parecerem à sociedade e ao rebanho profissionais e líderes bem-sucedidos que não são atingidos pelas contingências naturais próprias dos seres humanos (e mais ainda dos discípulos de Jesus), porque seguem determinados passos para o sucesso já aprovados por Deus e são fiéis em tudo, honram seus líderes e blá-blá-blá.


Penso que a Igreja de Jesus deve seguir princípios radicalmente distintos em certas áreas de sua administração e cuidado. A começar pelo nome que damos a certas rotinas: discipulado não é treinamento; diaconia não é colaboração; evangelismo não é divulgação; pastor não é coach, adorador não é (necessariamente) músico (nem levita!).  


O entendimento da natureza da Igreja e a leitura das Escrituras com as lentes da cultura do nosso tempo estão criando expectativas irreais em pastores, líderes e membros que são incompatíveis com tudo o que consta dos Evangelhos, das epístolas e do todo da Palavra de Deus. O resultado de expectativas irreais é a frustração, e o estresse é o próximo estágio. Considere que Deus não tem compromisso com fantasias humanas, ainda mais quando elas são motivadas pelo egoísmo, isto é, o ego no centro do palco de nossa vida, a satisfação estritamente pessoal de nossas cobiças (Tiago 1.14-15). Sem fazer juízo de valor, mas para ilustrar, a influência do espírito corporativo se dá até no layout dos templos. Os “antigos” púlpitos desapareceram, apagaram as luzes do ambiente, mergulhando o povo na escuridão, suprimiram os poucos traços cristãos e acenderam um holofote no indivíduo, este sim, importante – segundo a cartilha do marketing motivacional.


Há diversas lições que poderiam ser tiradas dessas situações, que na verdade se ajustam a um só “tema guarda-chuva”: o espírito ou as marcas do nosso tempo. Como antecipei, precisamos compreender a natureza da Igreja, bem como a natureza da vocação de cada um. A relevância da Igreja não é medida pelo sucesso numérico, ainda que alguns usem o texto de João 12.24 para insistir nisso (“se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto”). Se uma vara não dá fruto, estando de fato ligada à Videira verdadeira, o problema não é da vara. 


Quem amou o mundo não fomos nós, mas Deus, e Ele nos convocou para fazer a missão que é d’Ele (salvar, libertar e edificar são tarefas impossíveis a nós!). Quem dá o crescimento e realiza as promessas é Deus, que, como advertiu Paulo, é o único que age em todo o processo: “… de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento” (1 Coríntios 3.7). A tarefa dos ministros é preparar os santos para que estes efetuem a obra do ministério. Parece um paradoxo, mas nós, ministros, não fazemos a obra do ministério. Antes, “os santos” é que a fazem: 

E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo (Efésios 4.11-13, NVI, ênfase acrescentada).

Numa igreja saudável, que está ligada a Cristo, o próprio Senhor se encarrega de encaminhar pessoas para o seu serviço. Ministros têm a finalidade (“com o fim de”) de “preparar os santos”, isto é, orientar a membresia para que ela sirva, assim como os ministros servem ao Senhor. Todos devem ser úteis a Deus e precisam servir com seus talentos, vocações e testemunhos em meio à sociedade. Não podemos seguir e viver segundo a agenda do mundo, porque essa não é a nossa pauta. Num sentido, isso diz respeito ao “ide” de Jesus, que penso também ser preciso resgatar. 


A finalidade do serviço mútuo, que envolve muitos, já está dada pelo Senhor: levar todos “à maturidade”, que é uma Igreja forte, vigorosa, influente e com pessoas enriquecidas pelo pleno entendimento das reais expectativas que devemos alimentar em relação a Deus, a quem Ele é e a nós, seus servos, dentro do seu mundo.


Por fim, gostaria de lembrar a recomendação de Pedro: “Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pedro 5.7, NVI). A compreensão adequada de quem Deus é, do que Ele espera de nós como seus servos, como Igreja, e qual o nosso papel na sua Igreja e no seu mundo poderão servir de remédio para cristãos no mundo atual. Sendo Jesus uma pessoa, Deus conosco, um Salvador vivo e presente, o sentido vital de nossa vida de fé é o desenvolvimento de um relacionamento pessoal com Ele. 


Só teremos segurança e paz ao desenvolvermos um relacionamento pessoal, real, com Jesus, mas jamais por meio de símbolos de fé ou quaisquer outros artifícios da tradição. Os sintomas da depressão e demais doenças do nosso tempo encontram remédio n’Ele, e nem mesmo em nossas melhores teologias, porque Ele mesmo disse: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (João 5.39-40, NVI).

Algumas dicas para evitar a depressão:

 

  • Alimente-se bem (há alimentos com nutrientes que ajudam a prevenção).

  • Durma o suficiente.

  • Faça exames médicos regulares; a depressão pode ser causada por transtornos físicos facilmente identificados e remediados, sem provocar dependência a remédios ou drogas.

  • Evite pessoas e lugares que provocam mal-estar.

  • Procure ser disciplinado(a), mas saiba fazer concessões.

  • Habitue-se a orar e a ler a Bíblia e procure ter prazer nisso.

  • Tenha uma rede de amigos e procure ser sociável.

  MAGNO PAGANELLI  

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Magno Paganelli

 

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As informações se multiplicam. Segundo David Russell Schilling, até 1900 as informações se multiplicavam a cada século; até o final da Segunda Guerra, a cada 25 anos; atualmente, a cada 12 meses; no futuro, talvez a cada 12 horas.  

 Luiz Henrique de Paula 

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